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Angra segue prisioneiro de uma lógica hereditária de triturar vocalistas

4 horas ago


O caso da saída – demissão – de Fabio Lione, do Angra, rasga o véu da cordialidade dentro de uma banda e mostra, mais uma vez, que os desdobramentos de relações interpessoais ruins trazem desfechos desfavoráveis a todos os envolvidos.

Uma banda necessita ser uma sinfonia perfeita, uma união das qualidades de seus membros, para navegar em águas profundas da criatividade, se manter no mercado fonográfico como um player relevante, gerar capital material (dinheiro) e abstrato (sentimentos) e, dessa forma, viver para sempre dentro de suas obras musicais.

O Angra, porém, em certas etapas de sua existência se desvirtuou dessa premissa e gerou um grande prejuízo a si, aos seus integrantes e aos fãs.

A repetição sistemática de conflitos internos como as famigeradas faltas e ruídos na comunicação, com a adição de doses cavalares de ego, vaidade e o mantra de manda quem pode, obedece quem tem juízo, o grupo implodiu três formações.

Em dezembro de 2002, quando estava começando o sucesso do Shaman, Andre concedeu uma entrevista ao programa De Frente com Gabi, que ia ao ar pelo SBT. No breve bate-papo com a apresentadora Marília Gabriela, o artista falou sobre as razões que o levaram a deixar o Angra.

“O verdadeiro motivo para minha saída do Angra é que a relação dentro da banda estava ficando saturada. A relação entre os membros da banda estava saturada. No final das contas, isso é uma coisa que afeta a produção musical. Você não consegue se juntar pra compor, você não consegue se juntar para gravar, porque já rola um clima”.

A saída de Andre Matos e companhia foi o primeiro ato da própria destruição, por assim dizer, em que o Angra se meteu. Em sua segunda encarnação, com o vocal de Edu Falaschi, a banda conquistou uma incrível redenção, mas, lamentavelmente, durou pouco.

As chagas do passado voltaram a se manifestar na segunda vida do grupo. O alvo principal foi o vocalista, que chegou a adoecer, teve problemas em sua voz e passou pelo inferno com o escrutínio público por conta da apresentação no Rock In Rio 2011.

Para quem não lembra ou não sabe, o espetáculo do conjunto no festival foi deveras desastroso em termos de performance, qualidade de som e em tudo mais que envolva um espetáculo ao vivo. Na época, Edu, tristemente, levou a culpa de causador de todos os problemas.

E não demorou para essa formação sucumbir! Dessa forma, o Angra ficou sem vocalista pela segunda vez e, em certa medida, se tornou um cadáver insepulto, vibrando na sintonia de uma presença fantasmagórica e pronto para se valer da nova vítima – vulgo novo vocalista.

Sob escombros criativos e gerenciais, os caras trouxeram para seu vórtice o italiano Fabio Lione (Rhapsody, Vision Divine). A união rendeu três álbuns – a saber: Secret Garden (2014), Ømni (2018) e Cycles of Pain (2023) -, mas a relação entre os músicos acabou indo para o ralo.

Em recente entrevista à revista Rolling Stone Brasil, Lione falou: “A história dessa banda é engraçada, porque tenho a sensação de que os caras sempre têm que diminuir o trabalho de alguém”.

Fabio ainda jogou a real sobre em que pé estava a empresa quando chegou para trabalhar: “Diminuir um pouco o trabalho de Andre Matos. Se não existisse Andre Matos… Aí diminui um pouco o trabalho do Fabio… A banda estava perdida. Estava fudida. O engraçado é isso”.

Com esta fala de Fabio, o cavalo de troia se mostra presente e vivo no cerne da empresa: como uma obsessão que insiste fascinar e subjugar o seu desafeto. Assim sendo, pequenos remendos neste show de horror não o farão galgar passos bem-aventurados para recomposição de seu capital artístico e moral.

Há um novo cantor pintando no horizonte, todavia, o Angra segue prisioneiro de uma lógica hereditária de triturar vocalistas.



Via: RockBizz