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Entrevista Katatonia: “Boa energia, é o que a banda tem agora”

4 horas ago


Katatonia. Crédito: reprodução

O Katatonia retorna ao Brasil para apresentar a turnê de Nightmares as Extensions of the Waking State, com show marcado para 21 de março de 2026, no Cine Joia, em São Paulo. Conhecida por desafiar rótulos ao longo de mais de três décadas, a banda sueca consolidou uma base fiel de fãs no país e promete um repertório que mescla faixas inéditas no Brasil com clássicos.

O show promove o novo álbum Nightmares as Extensions of the Waking State, marcando mais um capítulo de reinvenção criativa do grupo liderado por Jonas Renkse. O 13° álbum da carreira equilibra peso, melancolia e experimentação, com foco nas guitarras e na nova formação, que inclui os guitarristas Nico Elgstrand e Sebastian Svalland.

Em uma conversa com o Wikimetal, o guitarrista Nico Elgstrand falou sobre o show no Brasil, suas trajetória na cena suéca, o novo álbum do Katatonia e bandas de metal da Suécia.

Expectativa para o show no Brasil

Wikimetal: Você se apresentou com o Katatonia no Brasil em 2024, como está a expectativa para voltar ao país? 

Nico Elgstrand: Eu realmente amo todos os países da América do Sul. Tenho amigos do Brasil. Então, toda vez que vou lá, a comida é incrível, as pessoas são fantásticas. E agora está muito mais quente do que aqui, então vai ser muito bom.

WM: Há alguma banda brasileira que você goste, independente do estilo?

NE: Claro. Estou tentando me lembrar. Sempre que me perguntam do que eu gosto, minha mente simplesmente congela… Eu fui à academia e acabei de ouvir “Roots Bloody Roots”, que é, eu diria, minha música favorita do Sepultura, mas em outras bandas… Eu sei que tem pelo menos outra banda do Brasil que eu gosto…

WK: Sarcófago?

NE: É, aí está! Isso é bem old school. Eu gosto disso. É muito bom.

WM: Em uma carreira marcada por diferentes fases do metal sueco, tocar na América do Sul representa algo simbólico para você?

NE: Eu não ligo muito para simbolismos. Eu realmente curto muito. A comida é ótima, as pessoas são ótimas e os shows são sempre fantásticos, então… 

WM: O que podemos esperar deste novo show no Brasil? 

NE: Boa energia, eu acho que é o que a banda tem agora. Quer dizer, eu e o Sebastian somos relativamente novos. Não somos novos, mas já faz uns dois ou três anos para mim e um para ele. Então, sempre leva um tempinho para todo mundo se entrosar. Mas acho que a energia está muito boa porque estamos… É sempre assim quando alguém novo entra em uma banda. É como se todo mundo recebesse uma nova faísca de energia. Então, acho que recebemos, pelo menos, na última turnê. Depois, todos podemos dizer que, sim, está melhorando. Então, eles podem esperar o mesmo, só que melhor.

Trajetória musical e influências

WM: Sua trajetória inclui passagens por bandas como Entombed e Entombed A.D., além de outros projetos na cena sueca. Como essas experiências moldaram sua identidade como guitarrista?

NE: Tento não pensar. Sabe o que quero dizer? Eu realmente me sinto muito abençoado por tocar com bandas tão boas. E é muito desafiador e gratificante ao mesmo tempo. Mas, quer dizer, não sou eu quem vai dizer como isso afetou meu desenvolvimento, se é que afetou. Sabe, eu tento não pensar muito, só sentir e seguir em frente. Acho que, após tantos anos em turnê, você aprende muita coisa, principalmente sobre sua musicalidade e o que você gosta. Então, acho que estou tentando me lembrar de quem eu era há uns 20 anos. Aquele cara achava que sabia tudo, mas não sabia nada. Então, é bom pelo menos pensar que você está mais sábio e mais velho.

WM: Antes de ser o guitarrista oficial no Katatonia, você já tocava ao vivo com eles. Como foi o convite para entrar na banda?

NE: Foi ótimo. Depois que entrei, tivemos um show isolado na Austrália e depois uma turnê. Acho que todos nós sentimos isso porque estávamos nos divertindo muito juntos e, no fim das contas, o mais importante em uma banda é como você interage, o quanto vocês se divertem juntos, porque 99% do tempo você só vai ficar sentado em uma sala falando besteira. Então, nos divertimos muito. No fim das contas, não fiquei nem um pouco surpreso quando veio a pergunta: “Você quer entrar em tempo integral?” Foi uma sensação boa, é como quando você fica com uma garota ou algo assim e tudo está ótimo. Tem coisas que você não precisa dizer. É como se fosse você. Você sente e sabe, as coisas estão indo bem. Então foi uma daquelas coisas de que eu tinha quase certeza de que, sim, provavelmente entraria para essa banda porque estávamos nos divertindo muito. 

WM: O som do Katatonia mudou muito no decorrer dos anos, e o novo álbum Nightmares As Extensions Of The Waking State mostra uma sonoridade diferente de todas as outras. Como você contribuiu nesse disco?

NE: Nós simplesmente colaboramos. Conversamos e tocamos música e meio que nos influenciamos mutuamente sem tentar influenciar. E acho que, assim que você começa a pensar em coisas como “ok, agora vou fazer um álbum de reggae”, nunca é bom. Mas foi muito legal descobrir que eu e o Jonas temos… Acho que eu pensava que tinha um gosto musical bem peculiar e… Somos muito parecidos em muitos estilos musicais peculiares. Então, isso é incrível. Foi muito bom encontrar uma alma gêmea não no metal, mas em vários outros tipos de música estranha que eu achava que só eu gostava. E aí ele disse: “Ah, não, eu também gosto disso”. 

Acho que você não influencia conscientemente. Você só curte e ouve música. E isso molda. Então, quando eu toco e quando a gente toca junto, eu tento não desligar o cérebro o mais rápido possível. É muito difícil porque o cérebro quer, tipo, “é, vamos tocar, blá, blá, blá”. Ele fica pensando, tipo, “vamos fazer essa lista de receitas”. É como quando você cozinha, desliga e só experimenta, “nossa, isso está ótimo”. E aí, o que tem dentro? Não faço ideia. Temperos e comida. Quanto menos você pensa e menos segue uma receita, maior a chance de algo interessante surgir. Então é isso. Acho que foi assim que a influência da minha parte se manifestou. 

WM: Comparando sua fase no Entombed, marcada por riffs diretos e energia crua, com o Katatonia, que explora nuances e atmosferas, onde você se sente artisticamente mais desafiado?

NE: É simplesmente diferente, eu acho. Quer dizer, porque eu toquei no Entombed por um tempão. Então, no começo, eu pensava: “Não consigo. Isso é impossível”. E, após 15 anos, é tipo: “É, talvez eu consiga”. No começo, com o Katatonia, esquece. Pensei: “Não consigo. É muito difícil”. Mas agora penso: “É, cara, talvez eu consiga”. Então, acho que os desafios são bem diferentes e nenhum é mais fácil que o outro. Quer dizer, eu diria que, no Entombed, é praticamente tudo em quatro tempos. Então, é como se estivesse na sua espinha dorsal, você sempre encontrará a sua alma. 

Se você se perder com Katatonia,  você realmente se perde, porque muda. E eu acho isso muito divertido porque você tem que estar sempre alerta. É como se você errasse em algum lugar, vai demorar muito para você voltar aos trilhos. Então eu acho que isso é realmente mais desafiador. E também, eu não faço isso há muito tempo. Nós chamamos de math metal quando não é 1, 2, 3, 4, é tipo Tool ou qualquer outra banda. Bandas que estão explorando compassos diferentes e coisas do tipo. Eu acho super legal fazer coisas novas. Então agora não é tão novo assim, mas pelo menos durante um ano, eu pensava: “Cara, não consigo fazer isso. Espero que eles não saibam disso”.

WM: Qual seu álbum favorito do Katatonia e porque? 

NE: Isso é difícil. E sempre muda. Mas acho que ainda agora… Skyboy of Stars (2023). Acho fantástico. Os antigos… Se você ouve algo por muito tempo, eu costumo guardar na estante e depois voltar a ouvir. E mesmo quando você volta a ouvir, é só umas duas vezes e depois… Acho que porque Skyboy of Stars foi o último antes de eu entrar. Quando você faz um álbum, você nunca escuta. Pelo menos eu não. Eu nunca ouço depois porque é tipo… Então, Skyboy of Stars ainda está nas minhas playlists. 

Tem tantos… E tem faixas aqui e ali. Hoje em dia, eu não ouço tantos álbuns. A gente faz playlists, ouve umas músicas e depois muda. Eu nem tenho mais um toca-discos, então acho que a época de ouvir álbuns inteiros acabou para mim. Mas se eu tivesse que citar um, e mesmo após tocarmos músicas dele, eu ainda acho interessante de ouvir [Skyboy of Stars]. Então, é um ótimo álbum.

Top 5 bandas suecas

WM: A Suécia é famosa por lançar muitas bandas de rock e metal, desde Bathory até Ghost. Você consegue me falar seu top 5 bandas suecas?

NE: Você disse Ghost, o álbum Meliora (2015)… Acho que Ghost, para mim, é um híbrido tão legal. Eles abriram um show do Entombed. Não sei quantos anos foram, muitos anos atrás. E eu fiquei: “Que banda é essa?” E eu me lembro que eles estavam tocando “Here Comes the Sun” do The Beatles, que é uma música muito alegre, mas eles tocaram em tom menor em vez de um tom maior, porque eles eram ghouls e não estavam nada felizes porque o sol estava chegando. E eu pensei: “Cara, essa banda é incrível”. E aí, puff! Mas eu ouvi Meliora e foi tipo: “Nossa!”

Eu gosto muito deles. Opeth, claro, também. É meio que como se fossem amigos. Quando você conhece alguém, você tende a gostar mais do trabalho dessa pessoa. Mas as duas bandas são fantásticas. Nossa, tem tantas bandas como Candlemass, obviamente. Nossa, nem consigo pensar em quem eu deveria mencionar. Você me ajudou com Sarcófago. E agora tem milhões de bandas que eu não consigo lembrar. E quando a gente desligar, eu vou ficar pensando: “nossa, eu devia ter dito isso. Blá, blá, blá. 

WK: Europe?

NE: Isso é tipo uma lembrança antiga. É mais como memórias de infância, de quando eu era adolescente. Mas claro, quer dizer, eles são fantásticos. Não é como se eu ouvisse Europe ativamente hoje em dia, mas eu os amo, é mais uma lembrança.

WK: E gosto muito do ABBA.

NE: Nossa. Você está brincando? ABBA é… Toda vez que eu ouço, ainda penso: “Como é possível?” É uma façanha musical incrível. Em termos de composição, é impressionante. Faz tanto tempo e todo mundo continua tocando. Está em todo lugar. Você deveria estar realmente cansado disso, eu estou realmente cansado de quão comercial é. Mas é demais, ainda assim, cada música é simplesmente incrível. Essa é provavelmente a melhor banda da Suécia de todos os tempos. Se você tiver que escolher uma, ABBA arrasa.

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Via: WikiMetal