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Entrevista: Marina La Torraca fala sobre assumir vocais no Battle Beast

3 horas ago


A banda finlandesa de power metal Battle Beast apresentou a brasileira Marina La Torraca. Após anunciar a saída de Noora Louhimo, a banda aposta em uma vocalista já consolidada no metal moderno.

Natural de São Paulo, reconhecida como frontwoman da banda Phantom Elite e integrante do projeto de metal sinfônico Exit Eden, Marina tem reconhecimento mundial por suas diversas colaborações, incluindo shows como convidada do Avantasia. Agora, a vocalista se prepara para estrear ao vivo, na turnê do último disco da banda, Steelbound, lançado com Noora Louhimo.

Em uma conversa com o Wikimetal, La Torraca falou sobre as expectativas e desafios de assumir os vocais do Battle Beast e planos futuros.

Wikimetal: Assumir os vocais do Battle Beast em uma turnê mundial é algo significativo na sua trajetória. Como recebeu o convite e qual foi sua primeira reação ao saber que lideraria essa nova fase da banda?

Marina La Torraca: Não foi exatamente um convite com tudo confirmado. Foi um convite para explorar a possibilidade, que a gente decidiu tudo muito depois. Mas a minha primeira reação foi de choque total. Primeiro, eu li no assunto do e-mail e pensei: “Quem está me mandando isso?” Eu achei que fosse alguma piada, algum fã, alguma coisa. Obviamente, a última coisa que passou pela minha cabeça é que seria, de fato, o que era. Então, foi muito engraçado. Meu primeiro choque foi esse, e quando eu abri o e-mail, que parecia ser legítimo, dizia assim que a cantora deles estava saindo da banda, e isso já foi o segundo choque. Porque eu pensei, “mas peraí, eles estão fazendo turnê agora? Como assim, ela está saindo da banda?” Então foi um choque. 

E o terceiro choque foi que eles estavam me cogitando como cantora. Então, eu pensei: “mas não tem nada a ver”. Minha primeira reação foi “nada a ver. Como assim? Eu? Tenho certeza? Não, eles escreveram pra pessoa errada”… Sabe quando você começa a ficar neurótica? Eu acho que eles escreveram pra pessoa errada. Honestamente, porque o trabalho que eu tenho feito com o Phantom Elite especificamente, ultimamente, é musicalmente bem longe do Battle Beast. E é o que eu estava focando mais ultimamente, e eu pensei “será que combina?” Mas eu tive que provar pra mim mesma também. Logo depois desse e-mail, a gente já chegou à conclusão, conversamos, teve reunião online para se conhecer, para conversar. E aí eu já senti uma vibe muito boa deles.

O que não é exatamente o caso em todas as bandas. Achei muito legal que eles pareciam ser super abertos e bem entrosados, um ambiente bem familiar. E eu falei: “vou tentar cantar as músicas aqui, mandar pra eles alguma coisa”. Então, eu cantei algumas músicas do Steelbound em casa. E foi nesse momento a primeira vez que eu entendi, eu falei assim… Dá certo! Dá liga isso aí! Faz sentido! A partir daí, a gente foi checando organicamente, fazendo mais gravações, mais coisas juntos. Eu fui até a Finlândia pra conhecer eles pessoalmente, pra gravar alguma coisa ao vivo, com o Janne [Björkroth], que é o tecladista e também produtor da banda. Nós checamos bastante como ficariam as músicas antes de firmar a conexão aí. Foi um processo todo de um ou dois meses. Mas porque a gente também não tinha mais tempo e tinha que ser tudo muito rápido, eles estavam, de fato, já começando a turnê europeia do Steelbound.

Os desafios em assumir os vocais de uma nova banda

WM: O álbum Steelbound já foi lançado com as gravações originais de Noora Louhimo e recebeu aclamação da crítica. Como você encara o desafio de interpretar ao vivo um repertório que o público já conhece?

MLT: Acho que o jeito saudável que encontrei para mim mesma, para encarar esse repertório de maneira profissional, é fazer um paralelo com teatro musical, pois eu também venho do teatro musical, tenho bastante experiência com isso. No mundo de banda, geralmente, tem uma pessoa só que canta o repertório todo, e os fãs se conectam com essa pessoa. E no musical é diferente, tem um papel  interpretado por muitos atores diferentes e os compositores escrevem a música para aquele papel e têm um tipo de pessoa em mente, um tipo de voz em mente que precisa encaixar, mas vários atores podem e interpretam o mesmo papel em diferentes países. Pensa no Fantasma da Ópera. Quantas pessoas interpretaram o fantasma da ópera até hoje? É assim que escolhi. 

Claro que os fãs têm uma associação especial com a Noora. É óbvio. Não é tão simples assim, não é só um papel. Não estou tirando o mérito afetivo de um vocalista que está há 12 anos na banda. Óbvio que não. Mas, como eu disse, é o jeito profissional que eu estou vendo isso. Então, as músicas foram escritas de uma certa maneira e eu vou cantar essas músicas que foram escritas dessa maneira e com algumas coisas em mente. Energia é muito importante. E como eu vou interpretar, como eu vou trazer energia e precisão para essas músicas, é a minha decisão.

WM: Existe uma preocupação em preservar a identidade vocal do disco ou você busca naturalmente inserir sua própria assinatura às músicas?

MLT: Como a gente está falando de voz, é um instrumento muito biológico, muito particular. Então, por mais que eu até tentasse imitar o som dela [da ex-vocalista Noora Louhimo], não vai sair igual. É uma coisa tão particular. O que eu estou tentando fazer é, na verdade, uma mistura. Como a única referência que eu tenho de alguém cantando essas músicas é da Noora, acaba ficando um pouco o jeito que ela canta, que também é o jeito que eu aprendo. Isso é uma coisa que vai se desenvolver com o tempo.

Quanto mais eu cantar as músicas ao vivo, eu já notei que no começo tinha uma intenção de imitar um pouco maior do que agora. Tem algumas coisas que eu tenho feito, por exemplo, no último ensaio que a gente fez essa semana, que eu pensei: “as músicas estão, de fato, soando diferente”. Mas não é uma coisa imposta. Não é uma coisa que eu vou, de fato, falar assim: “agora eu tenho que fazer isso aqui diferente, porque eu tenho que deixar a minha assinatura”. Não, a música tem que soar bem. Só isso. Então, o jeito que dá mais certo é o jeito que eu vou estar interpretando.

WM: Sobre o show na Finlândia, país de origem do Battle Beast, representa um teste adicional por se tratar do público nativo da banda?

MLT: Honestamente, eu não sei, porque eu tenho recebido tantas mensagens positivas do público finlandês que, de fato, eu não estou sentindo essa pressão extra por enquanto. Porque eu acho que o apoio também é extra. Como eles têm tanto orgulho da banda, eles sabem a história da banda, que a Noora também não era a primeira vocalista, que o line-up é basicamente o mesmo… Que eles vieram realmente do nada, cresceram, são músicos fenomenais. Acho que o apoio à banda é muito grande também. Então, um cancela o outro.

A responsabilidade de representar o Brasil em uma banda estrangeira

WM: Você construiu carreira sólida na Europa, radicada na Alemanha. Como enxerga esse momento dentro do seu percurso internacional como artista brasileira no metal?

MLT: Para falar a verdade, eu não sei exatamente como é que fui parar onde estou agora. Minha intenção nunca foi me mudar para a Alemanha para fazer carreira como cantora de heavy metal. Na verdade, as coisas acabaram acontecendo. O motivo pelo qual eu vim para a Alemanha não foi… Para falar a verdade, eu nem tive a intenção de me mudar para a Alemanha. Eu acabei ficando, porque a minha intenção era, de fato, vir para a Alemanha, ficar um mês, dois, e aprender alemão. Essa era a minha intenção. Eu juntei dinheiro, trabalhei em um cruzeiro, para pegar esse dinheiro e passar um mês na Alemanha nas férias da universidade que eu estudava… eu estudei arquitetura na USP em São Paulo e eu pensei: “Tenho aqui alguns meses e eu vou fazer isso”.

E eu estava cansada de São Paulo, a cidade é uma loucura! Estava morando lá no Butantã, isolada do mundo, ali na bolha da faculdade. Perto da USP, se não, como é que eu ia chegar na aula se eu não saísse 3 horas antes do transporte público ou de carro? Não sei o que é melhor também. Então eu falei: “Olha, eu vou fazer isso, deixa eu, foda-se”. Acabei gostando tanto daqui porque, na verdade, eu estava tão cansada de São Paulo, mas tão cansada de São Paulo, eu vim para Berlim para estudar e eu também pensei: “Isso aqui tem uma vibe muito São Paulo. Eu vou para outro lugar”.

Eu simplesmente, eu juro, eu entrei em um trem e eu peguei alguém que conheci na rua que comentou:  “Vai para tal cidade. Que lá é tranquilo e é onde eu estudo. Eu falei, eu vou, e fui, entrei no trem e fui. Eu falei, sei lá onde eu vou ficar. Fiquei em um hostel, em um lugar e outro. Eu consegui arranjar um intercâmbio com a USP, foi bastante difícil, mas eu consegui, então eu consegui ficar legalmente estudando na Alemanha. E essa foi a intenção, eu estava estudando, fazendo trabalho de estudante aqui, trabalho de bar, tradução, etc. Fui ficando e tinha parado de cantar por um tempo, porque eu estava cansada. Vou focar aqui nos estudos e na carreira.

E não deu certo. Eu acabei voltando em algum momento para o mundo das bandas. Assim que eu me formei, o meu primeiro trabalho que consegui após me formar foi no musical. Acabou rolando, foi se desenrolando e, como eu disse, uma carreira na música heavy metal é uma coisa bem difícil porque não é financeiramente viável. É uma coisa que simplesmente acontece ou não. Você pode trabalhar para fazer isso acontecer. Eu sempre trabalhei muito duro nas bandas, é uma vida dupla. Você tem que, de alguma maneira, se manter e ralar bastante no trabalho com a banda. Para mim, agora, entrar em uma banda do nível do Battle Beast, que tem um certo apoio financeiro, é bem significativo.

WM: Que tipo de responsabilidade vem com o fato de representar o Brasil em uma banda reconhecida no cenário do metal europeu?

MLT: Então, eu não vejo como uma responsabilidade pelo lado ruim, não sinto nenhum medo ou pressão, porque eu acho que fazendo um trabalho, em um meio musical que já é bem pouco representado por brasileiros, eu acho que já é uma coisa positiva de qualquer maneira. Porque eu acho que, principalmente as pessoas que ouvem heavy metal no Brasil, que é muita gente, mas ainda é uma minoria… Essas pessoas ficam com um pouco de vergonha de serem representadas internacionalmente por artistas como a Anitta. Então, nesse quesito, eu penso assim: que bom que eu não sou a Anitta. 

Eu acho que as pessoas, os metaleiros, podem ficar felizes. E olha, eu não odeio a Anitta. Eu só estou dando um exemplo que eu já ouvi muita gente falando: “Que vergonha ser representado por ela com tanta gente boa por aí”. Acho que eu fico honrada pela possibilidade de estar representando um gênero musical que é desfavorecido.

Planos futuros do Battle Beast

WM: Essa experiência pode abrir portas para uma colaboração mais duradoura com o Battle Beast ou, neste momento, o foco é exclusivamente a turnê de Steelbound?

MLT: Eu sou a cantora nova da banda, então de fato a gente não vê a hora de fazer mais músicas. Músicas novas. De um ponto de vista completamente diferente. Eu acho que se fosse simplesmente uma coisa… Tapar o buraco ali pela turnê. Eu acho que não ia dar certo. Acho que os fãs do Battle Beast não iriam… Engolir. Eu acho que é uma banda muito roots. O Battle Beast não é o tipo de banda performática. O jeito que eles se apresentam, como eu disse, eles são bem unidos, eles são bem familiares, eles são bem… The real deal [autênticos].

Então, eles fazem muita coisa eles mesmos, produzem eles mesmos, escrevem eles mesmos, o management é eles mesmos. Contratar alguém ali para fazer um show, para fingir que está sendo a cantora nova, eu acho que não é uma situação que eles lidariam bem. Esse negócio de fingir assim não é com eles e, honestamente, comigo também não. Acho que nesse sentido, eu acho que no sentido musical também, mas pessoal, a combinação assim deu muito certo.

WM: Quais seus planos futuros com a banda? Podemos esperar sua estreia com o Battle Beast no Brasil?

MLT: Para ser bem honesta, a banda não tem nenhum plano concreto para depois dessa turnê. A intenção é escrever e gravar músicas novas, o mais rápido possível e lançar e promover o mais rápido possível. Então, eu acho que… Shows no Brasil, na América Latina, fazem muito sentido, vão fazer muito sentido em algum momento. Por enquanto não, não tem nada concreto planejado, mas eu acho assim, por que não? Em um próximo ciclo de turnê, eu acho que faz muito sentido, principalmente com a minha representação brasileira, passar pelo Brasil.

WK: Estamos ansiosos por isso! Você pode deixar algum recado para os nossos leitores e os seus fãs no Brasil?

MLT: Estou sempre falando a mesma coisa. Que eu de fato não vejo a hora de tocar no Brasil de novo, pela primeira vez desde que comecei lá, fazia os shows aí do circuito no São Paulo, Manifesto e Fofinho Rock Club. Então, eu não vejo a hora de fazer uns shows por aí, no Brasil inteiro, e eu espero que a gente consiga fazer isso o mais rápido possível. Fiquem de olho aí nas redes sociais minhas e da banda. Vai seguir a gente no TikTok porque a gente está tentando crescer naquela plataforma – eu não sei o que vai sair disso, mas… Vamos tentar.

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Jéssica Marinho

Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo).

Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento.

Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos – [email protected]





Via: WikiMetal