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Reunião do Angra: Rafael Bittencourt fala sobre Bangers Open Air, legado de Andre Matos e mais

7 horas ago


Angra anunciou um show no Bangers Open Air 2026 com a chamada formação Nova Era, marcando uma reunião histórica de Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli com Edu FalaschiAquiles Priester e Kiko Loureiro. A banda também tem um side show no Espaço Unimed, dia 29 de abril, celebrando em grande estilo os 25 anos de Rebirth, o álbum que redefiniu o destino da banda e marcou uma geração inteira de fãs do metal brasileiro e mundial.

Porém, a banda havia anunciado um hiato em agosto de 2025 após o fim da turnê de 20 anos do álbum Temple of Shadows. Também passaram por troca de formação com a saída de Fabio Lione, entre outros momentos marcantes que definem a história de um dos maiores nomes do metal nacional.

Em entrevista ao Wikimetal, o guitarrista fundador Rafael Bittencourt refletiu sobre a trajetória do Angra, falou sobre o show de reunião, a saudade de Andre Matos e a fase atual da banda.

O tão aguardado show de reunião no Bangers Open Air

Wikimetal: Muitos fãs ficaram surpresos com a velocidade em que a reunião foi anunciada, especialmente se levarmos em conta que a banda entrou em hiato há alguns meses. Quando esse plano da reunião teve início?

Rafael Bitterncourt: Eu acredito que começou em setembro do ano passado. Não foi um plano, foi um convite. Nós fomos convidados pela produção do Bangers Open Air para acontecer essa reunião. E o nosso plano de hiato já havia sido planejado muito antes. O hiato não tem tanto a ver com a possibilidade de uma reunião, né? Porque é uma situação completamente inusitada e especial. O hiato era… Porque após três álbuns, a gente lançou um álbum, que foi o Cycles of Pain (2023), lançamos um acústico e logo depois fizemos uma turnê em celebração ao Temple of Shadows. Um emendado no outro. Então, o hiato, nós avisamos os fãs que íamos parar.

WM: Como a atual formação da banda recebeu e reagiu à notícia de que haveria essa reunião?

RB: Inicialmente, o convite para a reunião não incluía a formação atual. Nós é que fizemos questão de que a formação atual estivesse também nesta celebração, porque não faz sentido para nós vir trabalhando há alguns anos com essa formação, em vários álbuns e tudo mais, turnês… E de repente colocar uma luz na reunião que pudesse ofuscar o que a gente vem fazendo. Então, a grande verdade é mostrar o momento em que nós estamos agora, como formação e também com a maturidade de celebrar o nosso passado, o legado.

WM: Vocês já se reuniram para ensaios ou alguma confraternização? Qual a expectativa de se reunir novamente com ex-colegas?

RB: Nós já nos reunimos em um churrasco, e foi um churrasco muito legal. Estávamos todos, com exceção do Bruno Valverde [baterista atual do Angra], que estava em turnê também, e o Aquiles [Priester, baterista da fase Nova Era]. Os dois moram nos Estados Unidos e estavam ocupados com outros trabalhos. Mas a gente vem se falando, conversando remotamente. Ensaios ainda não aconteceram. Os ensaios estão acontecendo individualmente, cada um preparando a sua parte. E, em breve, nós vamos nos juntar para fazer uma série de ensaios juntos.

WM: Anteontem, você e o Edu tiveram um longo papo no seu podcast, o Amplifica. Como foi para você finalmente ter conseguido realizar isso? Em algum momento você pensou que essa reconciliação seria impossível? 

RB: Não, impossível, eu nunca pensei. Eu acreditava que em algum momento aconteceria. O que me surpreendeu foi a força com que isso aconteceu. A gente teve uma conversa onde realmente conseguimos saudar uma série de mágoas e a gente realmente conseguiu recuperar a amizade, o carinho, o respeito, a admiração, uma série de sentimentos que estavam, vamos dizer, afogados há um bom tempo.

A falta de Andre Matos

WM: Como fundador da banda, essa reunião deve estar significando muito para você. Mas não podemos falar desse show sem citar o Andre Matos. Quanto que a falta dele significa para essa celebração?

RB: Eu não sou um cara que não se digladia com o destino, e a morte é uma coisa muito inevitável. Então, o que a gente pode é sentir a presença dele. A morte é uma coisa que você só consegue processar de maneira… Com a abstração, com o mistério, com a religião, espiritualidade, porque é intangível. O que dá é para sentir que ele estará presente, que ele é parte disso.

Honrar a parte que ele representa na banda, o que ele representa, que sem ele praticamente não existiria a banda. Então, honrar tudo isso. E a emoção da falta, colocar na música, no reencontro, na inspiração, nas emoções que você precisa… São muitas emoções. Sempre que você vai fazer um show. E esse é um show muito especial, justamente por isso, porque são muito mais emoções envolvidas, tanto da parte do público quanto da nossa. É colocar isso no espetáculo de maneira artística e transformar isso numa grande celebração, quase um ritual, um ritual mesmo de transformação de energias que estavam estagnadas.

WM: Na sua opinião, qual foi a maior contribuição de Andre Matos para a identidade do Angra? Existe algo que você gostaria de ter dito a Andre e que acabou nunca sendo dito?

RB: Quando ele morreu… Na época em que ele faleceu, tinha muitas coisas que eu gostaria de dizer para ele, mas hoje em dia, que ele é uma memória, um espírito, eu só agradeço. Peço para que ele fique em paz e que a gente esteja em comunhão. As coisas que a gente decide, as coisas que a gente pratica em nome da banda, nunca se cortem… Que é a vontade desse espírito.

São muitas… Agora eu tenho medo de falar uma que eu colocar, eleger uma que é a maior e as pessoas ficarem… Não é essa, é aquela, porque você sabe como são os fãs. Mas a maior contribuição foi o talento, porque foram muitas, especialmente a experiência que ele já tinha com o Viper, ele já tinha um legado como artista, ele já tinha contatos, então isso ajudou muito o Angra. O fato de ele ter contatos com gravadoras, com empresários, isso ajudou demais. A seriedade, a profundidade que ele colocava no trabalho, tudo isso contribuiu, são muitas contribuições. Mas se for eleger uma, eu acho que o talento enorme que ele tinha, isso aí foi o que mais impulsionou a banda.

Nova fase e aprendizado

WM: O Alírio está como convidado especial para o show, mas tem muita gente que gostaria de entender melhor a real situação dele com a banda. Ele virou de fato o novo vocalista do Angra?

RB: Sim, ele é de fato o novo vocalista do Angra. Porém, o Angra permanece em um certo hiato. Ou seja, a gente teve uma troca de vocalista no meio de um hiato. Então, sim, ele é o novo vocalista. Mas ainda não existem planos muito claros. A gente está se dedicando para fazer funcionar essa… Reunião, porque é uma coisa exclusiva, irrecusável, porque está sendo uma grande movimentação do metal brasileiro. Teremos lá, além do Angra como headliner, 15 bandas brasileiras. Então é um momento muito especial, não dá para ficar de fora. É isso, sim, ele é o nosso novo vocalista, mas nós não temos planos muito concretos para os próximos anos.

WM: Você acredita que algumas das críticas públicas feitas por ex-integrantes do Angra foram motivadas mais por mágoa do que por fatos?

RB:
Eu acho que sim, e também por uma visão muito parcial. As críticas que existiam eram a visão pessoal de cada um, não tem como explicar esses fatos. Na verdade, têm perspectivas sobre esses fatos. Então, na verdade, são pedaços de uma visão sobre os fatos, e muitas vezes eu achei que não tinha que responder. Eu tinha uma visão muito diferente e deixei assim. Muitos falam que quem cala consente, mas acho que não é só isso, acho que às vezes a pessoa quer atenção, a pessoa está magoada e quer desabafar, mas a minha visão é sempre muito diferente das que expõem por aí. Mas também eu não estou dizendo que a minha visão é a certa.

WM: O Angra passou por muitas mudanças de formação e momentos turbulentos. Qual foi o maior aprendizado – pessoal e profissional – que você tirou dessas experiências?

RB: O maior aprendizado é um grupo de assuntos… Quando a gente começa, achamos que as dificuldades de se ter uma banda de sucesso são tocar bem, fazer uma música boa, encontrar pessoas, parceiros que queiram investir na banda, cultivar um público, a gente tem essa ideia… Mas eu acho que o grande aprendizado foi perceber que o mais difícil é a gestão de recursos humanos, gestão de pessoas. Esse é o mais difícil, porque você não consegue fazer uma banda sozinho. Sozinho já não é uma banda. Então, se você precisa de pessoas, essas pessoas entram num objetivo comum. Eu acho que o mais difícil é você comunicar, manter, inspirar, motivar, gerir as relações para que esses objetivos sejam comuns.

Até porque cada músico, cada artista tem seus objetivos individuais. Então, a banda, seja como for, precisa ser uma convergência de interesses que são pessoais, mas que se acomodam, de alguma maneira, para um interesse comum. E na hora em que esse interesse comum não existe, a coisa começa a te engolir. Eu acho que isso é o mais difícil. Fazer a música não é o mais difícil. Música boa não é o mais difícil para mim. Motivar pessoas para estar comigo também não é o mais difícil. Cavar oportunidade, ter ideias, estratégias, também não é o mais difícil. O mais difícil é você lidar realmente com a vontade de cada um, com o nível de arbítrio. Então, é sempre mais complexo.

Turnê e planos futuros

WM: Essa reunião é um dos momentos mais aguardados do metal nacional. Além do Bangers Open Air e do sideshow, a banda pretende realizar uma turnê – talvez por outros países?

RB: A notícia da reunião está trazendo muita proposta para a gente. O fato do hiato, algumas pessoas questionam: ‘Mas vocês disseram que estão no hiato’… Sim, mas o fato de a gente anunciar que está no hiato está gerando muita movimentação, muita proposta, muita coisa acontecendo. Então, a ideia era estar no hiato, mas a gente vem recebendo propostas de diferentes países, inclusive do Japão, para criar coisas, mas nada confirmado ainda.

WM: A ideia de transformar a banda em algo parecido ao que o Helloween faz hoje chama sua atenção para o futuro? Existe uma possibilidade de vocês lançarem novas coisas juntos?

RB: Não com uma situação única, não com uma situação fixa. Mas o show que nós vamos fazer no Bangers Open Air e depois o sideshow já mostra que nós estamos animados em fazer isso. Eu não acho que esse tem que ser o único formato de show do Angra. Eu acho que o Angra tem que ter diferentes formatos. A gente tem que ter um show acústico disponível para as pessoas assistirem. Fácil de montar e de fazer. Um show com convidados disponíveis.

Estar aberto para fazer diferentes formatos de shows e ter uma formação fixa onde a gente também pode fazer shows com essa formação. Então, sim, eu gosto da ideia de fazer tanto o que estamos fazendo, mas não acho que tem que ser o único estilo de show. Sobre novos lançamentos, eu acho possível, eu considero, mas honestamente, não agora. Honestamente, algo mais para o futuro, mais para frente.

O carinho dos fãs e expectativas para a reunião

WM: O Rebirth completará 25 anos de lançamento neste ano, e marcou um período onde o Angra precisou começar tudo de novo, e vocês tocarão ele na íntegra no sideshow. Qual será a sensação em subir ao palco novamente com uma formação que fez história no metal nacional sendo considerada por muitos fãs – especialmente por quem nem era nascido na época – como a melhor que a banda já teve? 

RB: A sensação, como eu disse, é um monte de emoções. São emoções que vão gerar justamente a motivação para o show, muitas lembranças. A gente está agora estudando essas músicas, treinando essas músicas, lembrando de toda uma época. Estamos nos conectando com o que isso representou para as pessoas. O fã era adolescente na época, hoje vai assistir a esse show já com o seu filho do lado, com a família do lado, já em outra fase da vida. E aí tem a emoção de ainda ter relevância, representatividade para esse fã, essa pessoa. Essas emoções todas são o que torna tudo muito especial, muito especial.

WM: E como você tem recebido o carinho do público depois do anúncio? Tem muita gente que pergunta, pede alguma música, mostra esse entusiasmo e essa emoção pra vocês?

RB: Sim, sempre. Eu acho que isso deixou o público também mais relaxado. As tensões dentro da banda acabam gerando tensões também dentro do próprio público. E o público se divide, toma partidos e começa a se digladiar também. Então, essas tensões se relaxando também fazem com que o público relaxe e fique mais tranquilo com várias coisas. E, sim, eles participam. Ontem [última quarta-feira, 11], eu estive no show da banda Vola, no Hangar, e conversei muito com as pessoas, recebi muito carinho do público. O público do Angra é muito apaixonado, é muito cheio de emoções, cheio de depoimentos sobre como a banda foi importante em uma fase específica ou durante toda a vida. A gente recebe muitos depoimentos e sugestões de músicas também.

WM: Quando o show foi anunciado, imediatamente os fãs já começaram a pedir: “toca tal música, etc”. Mas além de celebrar a reunião da formação Nova Era, vocês também vão  comemorar o legado da banda em si. Vocês já chegaram a montar algum setlist para a apresentação?

RB: Sim, já estamos preparando o setlist. O setlist está pronto. Agora estamos preparando as músicas. Esse setlist são músicas difíceis pra caramba. Algumas delas fazem anos, décadas que eu não toco. Então, estamos aí nesse preparo.

WM: Então terá muita surpresa…

RB: Vai ter muita surpresa.

WM: Estamos todos muito ansiosos por esse show! Muito obrigada pela entrevista, você pode deixar um recado para nossos leitores?

RB: Obrigado pela entrevista, obrigado também por esse feedback. Fico muito feliz. Obrigado, Wikimetal, por tudo que vocês fazem pelo metal brasileiro. Isso é muito importante. Estamos neste momento de nos ver, de saber que cada peça aqui é importante para isso que nós fazemos. E se levar mais a sério, não na pose do artista, mas levar a sério o que a gente representa. Nós somos uma cena muito marginal, em um país que não dá valor à cultura, mas a gente se encontra. Quando falam de união, não é de se dar a mão e sair cantando pela rua. União é você saber a importância do outro, ter o respeito e colaborar para que o território exista e se fortaleça.

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Jéssica Marinho

Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo).

Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento.

Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos – [email protected]



Via: WikiMetal