A aguardada apresentação do projeto formado por Adrian Smith e Richie Kotzen no Bangers Open Air 2026 deixou claro que a parceria vai muito além de um simples “side project”. Em sua primeira passagem pelo Brasil, a dupla entregou um show marcado por entrosamento raro, liberdade criativa e uma energia que rapidamente conquistou o público.
Desde a abertura com “Life Unchained”, ficou evidente que o diferencial está na interação entre os dois músicos. Alternando vocais e guitarras, Smith e Kotzen constroem uma dinâmica pouco comum: não há um líder fixo, mas uma troca constante de protagonismo. Faixas como “Black Light” e “Taking My Chances” evidenciaram esse equilíbrio, combinando grooves de hard rock com influências de blues e soul. Ao vivo, o contraste vocal — o timbre mais cru de Smith contra a abordagem mais melódica de Kotzen — se mostrou ainda mais eficiente do que em estúdio, criando uma identidade própria e facilmente reconhecível.

Júlia Lage

Bruno Valverde

A “cozinha” de Smith e Kotzen
Outro destaque foi a base instrumental. A presença de Julia Lage no baixo e Bruno Valverde na bateria trouxe não apenas sustentação, mas personalidade ao som. A cozinha brasileira adicionou precisão e energia, elevando o nível da performance e contribuindo para uma sonoridade mais encorpada ao vivo. Momentos como “Scars” e “White Noise” reforçaram o peso da banda, enquanto “Got a Hold on Me” levou a apresentação a um nível mais performático, com ambos avançando pelo palco em um duelo de guitarras que sintetizou o espírito do projeto: técnica aliada à diversão.
Um dos aspectos mais marcantes do show foi a entrega genuína dos músicos. Longe da rigidez de grandes produções, Smith — conhecido por sua postura mais contida no Iron Maiden — apareceu solto, comunicativo e visivelmente à vontade. Essa leveza se refletiu diretamente na resposta do público, que rapidamente se conectou com a proposta mais orgânica e menos formatada da dupla. O show não soou como obrigação de turnê, mas como uma jam session ampliada — um encontro entre músicos experientes que ainda encontram prazer no palco.

O ponto alto veio no encerramento. Ao executarem “Wasted Years”, clássico composto por Smith para o Iron Maiden, a apresentação atingiu seu ápice emocional. A reação foi imediata, transformando o momento em uma catarse coletiva — potencializada pelo fato de o próprio autor estar no palco reinterpretando sua obra.
No contexto do Bangers Open Air 2026, o Smith/Kotzen entregou um dos shows mais autênticos do line-up. Sem depender de pirotecnia ou excesso de produção, a dupla apostou em musicalidade, interação e presença — e acertou. Kotzen, que já havia passado pelo festival em sua fase anterior como Summer Breeze com o The Winery Dogs, mostrou mais uma vez sua versatilidade e domínio de palco.
Mais do que uma curiosidade envolvendo dois nomes consagrados, o Smith/Kotzen se apresentou como uma entidade artística sólida — e, ao que tudo indica, ainda com muito a evoluir.
Fotos: Heitor Mota
Texto: Editorial Sempre um Rock
Set list by SetListFm: Smith/Kotzen Setlist
