
O ano de 2026 marca um capítulo especial para Edu Falaschi, que está celebrando 35 anos de carreira e lança nesta sexta-feira, 12, com exclusividade para o Brasil, Mi’raj, terceiro e último álbum de sua trilogia iniciada em 2021 com Vera Cruz e continuada em Eldorado (2023).
Após passar por Portugal, Brasil e América Latina, a saga do personagem Jorge chega ao fim no Oriente Médio, no berço histórico da religião. É neste cenário que o protagonista enfrenta seus últimos conflitos espirituais para derrotar a Ordem da Cruz de Nero e resgatar seu grande amor Janaína, coroando o trabalho conceitual mais completo e ambicioso do cantor brasileiro até hoje.
Em entrevista exclusiva ao Wikimetal, Edu detalhou o conceito do álbum, o processo de pesquisa histórica durante a composição e a mudança rítmica de seu novo trabalho, revelou planos para realizar um musical de sua trilogia e relembrou a história contada na audição exclusiva do disco sobre “Echoes of Vows”, música composta com as características de Bruce Dickinson e que chegou a ser enviada para o produtor do vocalista britânico para uma possível inclusão em seu novo álbum solo.
O cantor ainda relembrou o show de reunião com o Angra no Bangers Open Air 2026 e até mesmo falou sobre sua relação com futebol. Leia na íntegra.
Wikimetal: A saga do Jorge passou pelo Brasil no Vera Cruz, esteve na América Latina no Eldorado, mas vai acabar no Oriente Médio. A capa do disco traz muitos elementos da cultura árabe, como a travessia no deserto e a imagem do Vidente no Portal dos Doze Véus. Você poderia explicar um pouco mais sobre o conceito disso?
Edu Falaschi: A história do disco Mi’raj é o encerramento da trilogia. Como você falou, tudo começou em Portugal. O personagem principal é o Jorge, e ele vem para o Brasil fugido porque carrega um fardo: ele é como se fosse um escolhido de Deus para se desenvolver espiritualmente e crescer como homem. Ele é o escolhido daquela época. Na história do Mi’raj, explica-se um pouco mais que, em vários momentos da história da humanidade, existiram diferentes escolhas; ele não é o único de todos os tempos, mas naquele período, ele era essa pessoa. Ele cresceu em Portugal, começou a ser perseguido e precisou vir para o Brasil para fugir. A história começa mais ou menos assim. É uma ficção na qual utilizo também elementos da história real, como o descobrimento do Brasil, trazendo o próprio Pedro Álvares Cabral para a narrativa.
No Eldorado, que é o segundo disco e a segunda parte da trilogia, a trama se passa mais no México. Temos o [Hernán] Cortés, que é basicamente o colonizador espanhol que foi para lá. Tentamos manter um contexto histórico, mas continua sendo uma ficção. No final da história anterior, ele vem de Portugal para o Brasil fugindo e acaba conhecendo a Janaína, uma indígena que se torna a esposa dele. Vou fazer um resumão aqui, porque a história é bem longa e tem muitos personagens.
Acontece toda uma questão de guerra e, no final da história do Vera Cruz, a Ordem da Cruz de Nero, junto com o Bispo Negro — que é o antagonista principal —, faz com que ele tente voltar para Portugal, mas uma tempestade o joga para o México. Ele chega lá todo destruído e acaba sendo resgatado pelo Cortés e pelos astecas que habitavam a região na época. Ele se torna amigo de Cortés, eles fazem uma aliança e assim se desenvolve a história do Eldorado. No final desse segundo álbum, a Janaína é sequestrada. Eles vêm aqui para o Brasil, a levam embora e o Jorge, marido dela, não vê. Quando ele descobre o sequestro, tenta descobrir o paradeiro dela, e é exatamente aí que começa a história do Mi’raj.
Ele recebe um comunicado confirmando o sequestro e informando que ela foi levada pela Ordem da Cruz de Nero de volta para a Europa. O Jorge precisa ir para Portugal para se encontrar com seus aliados, o pessoal da Ordem de Cristo, para ver se eles têm informações sobre o paradeiro dela. Quando chega lá, ele descobre que ela realmente foi levada para a Europa, mas que depois foi transferida para o Oriente Médio, onde ficava a base da aliança da Ordem da Cruz de Nero.
A partir daí, ele recebe uma série de instruções sobre como chegar lá, o que fazer para alcançar o Bispo Negro, derrotá-lo, eliminar e destruir essa ordem do mal e resgatar a Janaína. Esse é o ponto central. A trama se passa no Oriente Médio justamente porque a Ordem da Cruz de Nero a levou para lá, e eu quis situar essa história nessa região porque ela faz paralelos com o cristianismo, com a história de Cristo e fala muito sobre religiosidade em geral, abrangendo também outras crenças.
Quando idealizamos essa narrativa, fazia sentido para mim terminar onde tudo começou: no cerne da religião, no berço da história de Cristo e do seu nascimento. Para nós, fez todo o sentido finalizar a história do Mi’raj, que conclui a trilogia no terceiro disco, lá no Oriente Médio. Por conta disso, toda a temática do álbum se passa basicamente nessa região. As músicas trazem elementos da música árabe e do Oriente Médio em geral, não ficando restritas apenas às sonoridades árabes tradicionais. Contudo, eu não entro no contexto político; foco na história em si, nessa ficção.
Não vou dar spoilers do final completo porque estamos lançando livros complementares: já lançamos o livro do Vera Cruz com todos os detalhes da história, vai sair o do Eldorado e, posteriormente, o livro com a história do Mi’raj. Em resumo, o Jorge passa a perseguir esses objetivos de encontrar e resgatar a Janaína, ao mesmo tempo em que tenta cumprir a missão divina que recebeu — algo de que ele nem suspeitava, pois cresceu sem saber de nada. Inclusive, parte essencial da trama do Mi’raj aborda as dúvidas dele sobre ser ou não capaz de cumprir essa missão. Tem muita coisa envolvida ali, e a história se desenvolve no Oriente Médio por todo esse contexto.
WM: Uma coisa interessante é que você sempre está usando culturas de outras partes do mundo. Eu queria saber como é o processo de pesquisa histórica para garantir que os elementos da cultura árabe, da América Latina, de Portugal e do Brasil entrem na história dos discos.
EF: Falar da nossa cultura é um pouco mais fácil, obviamente; sou brasileiro e a gente está inserido nisso desde sempre, então o processo foi mais simples. Mas, quando comecei a desenvolver todo o contexto do Eldorado — que se passa no México naquele período de 1509, durante o que chamamos de conquista do México pelos espanhóis —, os astecas estavam lá. E tem várias coisas sobre a cultura deles que a gente não sabe tanto, porque aprendemos mais a nossa própria história. Por isso, eu fui para lá, para o México, para pesquisar. Falei com pessoas ligadas à cultura mexicana, com historiadores, pesquisei coisas de museu e conversei com algumas pessoas locais; conheci, por exemplo, uma indígena. Contando para ela sobre a minha ideia, eu pedia também para entender os dois lados da história, porque toda história tem, no mínimo, dois lados.
Isso foi muito legal, porque uma das músicas [“Q’equ’m”] que coloquei no disco Eldorado tem a participação de uma cantora indígena [Sara Curruchich] cantando em asteca. Quando fiz a letra, escrevi em inglês e mandei para ela. Ela leu e disse: “Cara, eu quero saber dessa letra, quero entender a sua visão sobre as questões dos astecas da época”. Diante do meu texto, ela fez as considerações dela e pediu para alterar a letra.
Ela perguntou se poderia colocar a versão do seu próprio povo indígena, expressando como eles sentiram a relação daquela conquista dos espanhóis na época. Você vê que até hoje, mais de 500 anos depois, eles ainda se preocupam com isso. Ela alterou a letra e colocou o ponto de vista dela. A tradução ficou bem mais pesada e sombria do que a versão que eu tinha feito, falando muito sobre a destruição dos povos e detalhando o que os ancestrais dela sofreram.
E no Mi’raj é a mesma coisa. É um disco que tem esse contexto da cultura do Oriente Médio, no qual fui pesquisar também a parte rítmica, que é muito rica. A gente tem um pouco mais de contato com isso devido aos mouros, que colonizaram principalmente o norte e o nordeste do Brasil. A própria música nordestina é muito influenciada pela harmonia da música árabe. Então, nós já temos essa influência de forma mais próxima, embora também tenhamos tido contato com os espanhóis — mas o Brasil nem tanto quanto outros países da América Latina. Tivemos uma influência marcante da música árabe por aqui desde o início da colonização brasileira.
Por isso, foi um processo um pouco mais simples. Eu consultei bastante material e pesquisei muito, principalmente com o Marcus César, que é o meu percussionista e um verdadeiro gênio. Ele já tocou com todo mundo, inclusive com o Phil Collins, para você ter uma noção do monstro que ele é. O Marcus me ajudou muito com as questões rítmicas para trazer os elementos certos para as músicas. Em uma abordagem mais leiga, você monta um ritmo achando que soa árabe, mas quando vai analisar a célula de percussão deles, percebe que não tem nada a ver. Como ele é especialista nisso, o resultado ficou muito legal.
WM: Eu estava presente na audição do disco e foi muito interessante. E percebi que o feedback do pessoal até agora é que o álbum está muito diferente do Vera Cruz e do Eldorado. Parece que as músicas estão mais cadenciadas, não estão tão rápidas quanto nas outras. Eu queria saber se essa escolha já faz parte da narrativa da história ou se foi algo que veio espontaneamente.
EF: Sim, eu acho que foi espontâneo. A gente fez isso no Vera Cruz, é um disco que tem essa adrenalina, talvez por ser o primeiro, não sei, mas ele tem essa adrenalina. O Eldorado eu acho que já tem menos, ele tem também bastante virtuose, mas já tem menos, porque a gente se enfiou muito mais naquela questão cultural da música espanhola, da música mexicana, a cultura indígena local deles lá. Mas obviamente tem também, a gente toca power metal, então sempre vai ter um elemento ou outro.
Mas esse disco, eu flertei mais com outras coisas, então dei mais espaço. Talvez por isso teve essa questão da diminuição de virtuose instrumental, de muitas notas, porque também fui buscar novos elementos. Fui atrás do fusion, escutei muito Greg Howe, comecei a escutar outras coisas, Spyro Gyra, coisas que eu gosto. Também gosto muito de fusion, especialmente o fusion dos anos 90, acho muito legal, o fusion rock. Então eu ouvi muito, pesquisei muito, entendendo a linguagem das coisas, porque era uma coisa que eu queria colocar para diferenciar mesmo da linguagem das outras coisas que eu fiz, para não ficar repetindo elementos.
Na própria música “Unchained”, é super rock progressivo, tem influências do rock progressivo dos anos 80 e 90. E aí também tem elementos, por exemplo, um saxofone na música. Coloquei pela primeira vez na minha carreira um solo de sax, que eu amo, sempre amei. E eu falei: “Cara, já que é o final da trilogia, e já usei os elementos que usei no Vera Cruz e no Eldorado, eu vou explorar coisas novas”. E essas coisas novas, esses elementos, não flertam muito com a velocidade, não flertam muito com a questão da virtuose. Eles têm outras coisas, flertam mais com o lance da harmonia, uma harmonia mais jazzística.
Com questões, por exemplo, na “Unchained” mesmo, como eu citei, mais rock progressivo, eu usei muitos elementos quartais dentro das harmonias, que a gente chama de quartal. Então fui para outros caminhos, e isso obviamente tomou espaço desse lado mais virtuoso. E também o Victor Franco, que é o meu guitarrista, tem essa veia, então ele não é tão fã de coisas muito rápidas, ele é mais da melodia. Esse disco tem muito riff de guitarra mais metal também, uns riffões maiores, tem umas coisas de thrash misturadas, então ele vai mais para esse lado.
Tem muito mais groove esse disco, tem muito mais balanço. Hoje eu lancei a música “Intuição”, que é uma música bem com ritmo brasileiro. E esse disco vai para essa praia, um pouco mais pensando na harmonia, mudanças de tons, climas. Uma coisa que é legal desse disco é que ele tem muita dinâmica também, mais que os outros. Ele tem momentos que caem, fica um clima, vem um solo, depois sobe de novo, cai de novo. Tem bastante isso, e várias músicas têm isso.
Mas tem, obviamente, o power metal, que eu não lancei ainda. Tem as músicas que são rápidas, power metal, dois bumbos, um prog mais rápido também. Então, tem de tudo. Tem a veia do que a galera me conhece mais, que é essa questão do power metal, do prog power, que a gente chama. Mas eu enveredei também por outros caminhos e isso tomou espaços do que poderia ser usado como virtuose, com mais notas. Por isso, é um disco que eu explorei mais outras coisas. Achei que ficou interessante assim porque tem mais novidades, soa mais fresco para quem ouve. A pessoa fala: “Caraca, isso aqui eu nunca ouvi do Edu ainda, que legal!”. Eu acho que dá uma sensação de novidade.
WM: E uma coisa legal que você comentou na audição é que a faixa “Echoes of Vows” era para o Bruce Dickinson e ele acabou não usando. Você pode falar mais sobre essa história?
EF: Pois é, vou falar a história exatamente como ela é para não ter dúvidas. Tenho certeza absoluta de que o Bruce nunca ouviu, talvez nem saiba dessa história, mas o que acontece é o seguinte: o Brendan Duffey, que é o produtor do Bruce Dickinson hoje em dia, é um grande amigo meu e foi o produtor, junto comigo, dos discos do Almah, o Fragile Equality e o Motion, e também fez o Aqua, do Angra. É um grande produtor, ele e o Adriano Daga trabalhavam muito juntos. O Brendan hoje é americano, voltou para os Estados Unidos, produziu o último disco do Bruce Dickinson e está produzindo o novo agora.
Através de amigos, fiquei sabendo que eles estavam recebendo músicas. Mandei uma mensagem para o Brendan e falei: “Brendan, estou em processo de composição do meu disco novo, inclusive tenho várias músicas aqui. Se você quiser, eu te mando”. Ele respondeu: “Pô, Edu, que legal, manda sim. Sigilo total, pelo amor de Deus”. Ele pediu para mandar as músicas que eu tivesse para eles analisarem. Foi bem direto, disse que não ia prometer nada, mas pediu para mandar.
Então, o que comentei na audição, o fato interessante dessa história é que fiz essa música pensando no Bruce Dickinson cantando. Isso é que é interessante. A questão não é o fato de estar ou não no disco dele. A questão é que desenhei toda a estrutura dela pensando no jeito do Bruce cantar e nas melodias que ele utiliza. Coincidentemente, ele é o meu maior ídolo e a minha maior influência, junto com o Dio. Para eu cantar isso acaba sendo natural, porque cresci meio que imitando o Bruce Dickinson. No início do Mitrium, eu praticamente o imitava.
É uma história interessante porque a música foi construída para ele e enviada para o produtor dele. Acabou que, no fim das contas, ele já tinha várias músicas bem encaminhadas. O tempo foi passando e decidi usar a minha música, já que estava com ela desenvolvida e a considero muito forte. Eu tinha desenvolvido basicamente a parte da voz, ponte e refrão, que foi como mandei para eles.Quando fui utilizar no meu disco, desenvolvi o resto. Criei a introdução e o tema de guitarra no começo, que é lindo e casou muito bem com a música. Esse tema também tem influências do fusion e de guitarristas desse estilo.
Fui desenvolvendo todo o resto da música: a parte instrumental e os corais, que têm um momento bem épico. É uma das minhas faixas preferidas do disco, junto com “Unchained” e “Intuição”, e provavelmente uma das baladas mais legais que já compus para o meu gosto. Eu queria muito compor uma música assim, que começasse com um solo de guitarra, fazia tempo que não conseguia fazer algo desse tipo.
Acho que nunca lancei, na verdade, uma balada que comece com solo de guitarra. Se pegar, por exemplo, “Wishing Well”, já começa com a voz e o violão. “Heroes of Sand” começa com a voz e o tapping do Kiko [Loureiro]. “Skies in their Eyes”, do Vera Cruz, já entra com voz e violão. Eu sempre fiz de forma mais direta. Essa é a primeira vez que componho uma introdução grande antes de entrar a voz, dando destaque para o solo de guitarra. O solo foi feito com maestria pelo Victor Franco, que tirou toda a linguagem do fusion que eu queria colocar na música, e ele fez isso muito bem porque tem essa veia.
A história é essa: é uma música que preparei, com esse DNA do Bruce, caso acontecesse de ele gravar. Como acabou não rolando, eu acabei utilizando. É uma história interessante porque eu enviei o material. Provavelmente o Brendan nem chegou a mostrar ou comentar nada, pois eles devem ter recebido dezenas de músicas. Mas é uma faixa que tem a linguagem dele. A gente nunca sabe, sonhar não custa nada, mas quem sabe um dia possamos cantar juntos e ele cante essa música que foi feita para ele. É uma história interessante e quem sabe um dia eu realize esse sonho de cantá-la.
WM: Você tinha comentado no começo que o Vera Cruz teve o livro, o Eldorado também vai estar tendo, e possivelmente o Mi’raj também tenha. A gente sabe que os fãs de metal adoram essas obras conceituais, principalmente as suas. E é uma história que facilmente dá para imaginar uma adaptação visual. Como você gostaria de fazer uma adaptação visual da trilogia? E quem você acha que seriam os atores ideais para fazer o Jorge e a Janaína?
EF: Como eu te falei, eu sou um grande sonhador. Só que eu sou aquele sonhador que corre atrás e realiza a maioria dos sonhos. Eu já tenho uma vontade, até falei acho que na audição, de no ano que vem, possivelmente, focar bastante na trilogia e lançar um show, um musical. A gente já estava até conversando esse fim de semana, eu e as pessoas que trabalham comigo, de possivelmente criar um musical no ano que vem. Com atores, com talvez uma orquestra e a banda tocando as principais músicas da trilogia: Vera Cruz, Eldorado e o Mi’raj.
Agora, o ator principal, não sei, talvez seja uma grande coincidência ou obra do destino, mas esse fim de semana eu conheci o Thiago Lacerda. Acabei reencontrando amigos que estavam no evento, nesse evento que é o Metal Jam. Eu fiz participação nesse grande evento do Rio de Janeiro. Reencontrei amigos lá, que eu não via há mil anos, que tinham uma conexão com ele paralela, e ele tinha levado os filhos no evento. Eles foram no camarim e a gente acabou se falando.
A gente se conheceu e eu falei dessa história do musical para ele. Um dos meus amigos, que é o Pablo Greg, que faz as orquestrações do meu disco, foi quem falou para o Thiago: “Thiago, o Edu tem altas ideias, tem essa ideia do musical”. E o Thiago foi super gente fina: “Pô, cara, Edu, conta essa história aí! Vamos pensar, já pensou fazer um musical mesmo? Caraca, vamos fazer isso aí!”. Rolou, obviamente, um papo descontraído, mas se fosse o Thiago Lacerda, seria uma parada insana. Imagina o Thiago Lacerda como personagem principal, interpretando o Jorge nesse musical, e aí a gente montar um elenco com grandes atores, atores consagrados. É aquilo que eu falei, a gente ainda não paga para sonhar.
Então é isso, vamos ver se no ano que vem a gente consegue realizar alguma coisa perto disso, mas eu quero fazer algo especial da trilogia depois de completá-la. Vai ter, obviamente, como você falou, os livros. Espero que o Fábio Caldeira, que é o cara que desenvolveu comigo essa história toda — grande amigo, parceiro, vocalista do Maestrick — consiga terminar esses livros até antes do musical, para usar de base como roteiro para se criar esse espetáculo. E é isso, a gente vai trabalhar nisso aí. Obviamente tem vários outros planos para o ano que vem, que ainda são planos, mas criar um musical da trilogia é um deles.
WM: E agora que a trilogia está chegando ao fim, qual é o seu sentimento pessoal de terminar um projeto tão grandioso que começou em 2021, está no terceiro capítulo e se encerra para completar seus 35 anos de carreira?
EF: Eu tô bem contente, com sentimento de missão cumprida, porque não é fácil você desenvolver uma trilogia. Você tem que fazer as letras todas baseadas na história, então fica preso. Fica um pouco limitado a tudo o que você quer falar. Você tem que falar um pouco sobre o que quer, mas tem que estar dentro do conceito da história. Então, é um momento de satisfação que estou vivendo. De missão cumprida, como eu te falei, e também de alegria por ter conseguido conquistar.
Eu conheço vários cantores, inclusive o próprio Dio, que parece que estava fazendo também uma trilogia. Começou com o disco Magica (2000) e veio a falecer, não conseguiu terminar a trilogia. Conheci outros artistas também que não terminaram trabalhos de trilogia, trabalhos conceituais, e eu consegui, graças a Deus, finalizar com um disco que tá se encaminhando para ser um grande clássico.
Vejo muitos comentários da galera, converso com os fãs, e é um disco que tá agradando muito. Pelos singles que eu lancei — que foram Mi’raj, com a participação da Veronica Bordacchini, depois “Unchained”, que tem sax e toda aquela questão progressiva, e a música “Intuição”, mais brasileira, com a participação do Rafael Bittencourt —, tudo isso já me deu mais ou menos um spoiler do que a galera tá achando do conceito e do disco como um todo. Ainda vamos ouvir as outras músicas, claro, mas como eu tive o feedback dos outros discos, já posso comparar um pouco os três lançamentos. E eu vejo que esse lançamento do Mi’raj tá realmente acalorado. A galera tá gostando muito, tô bem feliz mesmo.
WM: Esse ano você completa 35 anos de carreira e, além do Mi’raj, acho que não tem como a gente não falar da reunião com o Angra, porque foi um momento muito especial não só para você e para a banda, mas para a cena do metal em si, porque a gente nunca tinha tido uma banda brasileira como headliner do Bangers. Hoje eu considero esse como o principal festival de metal no Brasil, ele se consolidou cada vez mais.
Eu queria saber um pouco de você: como foi dividir o palco com eles depois de muito tempo, especialmente com o Rafael, com o Kiko e com o Felipe [Andreoli]? Porque com o Aquiles [Priester] você já vinha trabalhando no Eldorado e no Vera Cruz. E qual foi aquele momento específico em que a ficha caiu de que aquilo realmente estava acontecendo?
EF: A gente fez alguns encontros antes, mas acho que o momento mais especial, em que a ficha caiu mesmo, como você falou, foi o ensaio. Quando a gente ensaiou a primeira vez com os cinco juntos. Teve o primeiro ensaio em que o Kiko ainda não tinha chegado, então a gente fez o segundo ensaio já com ele. Esse momento foi especial porque é muito impressionante, a gente não tocava junto desde o Aurora Consurgens. São muitos anos, é um disco de 2006, por aí. Pensa bem, fizemos a turnê, o Aquiles depois saiu e a gente nunca mais teve essa formação com os cinco.
Então, quase vinte anos depois, a gente fez esse ensaio e parecia que a gente nunca tinha parado de tocar junto. Às vezes eu fechava o olho cantando e vinha aquela sonoridade, porque obviamente a identidade de todos eles é muito forte. Eu já toquei Angra com dezenas de músicos diferentes, formações diferentes, com o pessoal do Almah, com a minha banda solo, que são músicos excepcionais, maravilhosos. Agora, fechar o olho e ouvir aquilo lá foi o mais próximo possível dos discos que eu lancei, porque eram as mesmas pessoas. Foi muito especial, muito legal. Tivemos vários momentos muito emotivos naquele ensaio. E esse foi o primeiro momento.
O segundo momento foi quando a gente estava agachado ali, esperando a nossa hora de entrar para tocar “Nova Era”, no primeiro show que foi o Bangers. Ali foi um momento em que caiu a ficha mesmo, porque quando eu olhei, eu estava no palco, ouvi o público gritando e, ao olhar e ver o Aquiles, o Felipe, o Kiko e o Rafael, eu falei: “Caraca, que mundo louco”. Foi muito emocionante, porque eu estava muito feliz. E foi um show memorável, lindo demais.
WM: Acho que para mim, até falando como quem acompanha a banda já há muito tempo, desde os 15 anos, quando eu comecei a ouvir, eu falava que sonhava um dia em ter a reunião. E aí quem diria que 10 anos depois, eu estaria aqui entrevistando você. Eu estava lá no show. E uma coisa que eu acho que é legal de comentar, foi quando vocês cantaram “Bleeding Heart”. O pessoal cantou as duas versões. Cantou tanto em português como em inglês. E é muito legal essa versão do Calcinha Preta, que furou a bolha total.
EF: Pois é, costumo comentar que vira uma confusão, porque o público canta em português e eu estou cantando em inglês, ouvindo eles cantando em português e me ouvindo cantando em inglês. Então, hoje em dia é uma coisa bem misturada mesmo. Era uma exclusividade do Nordeste quando isso acontecia, e agora se propagou de uma maneira absurda. O Brasil inteiro está cantando essa versão em português. Mas, ótimo, quanto mais a música se espalhar pelo mundo, para mim, mais bacana é.
WM: A Copa do Mundo está prestes a começar e você é muito fã de futebol e já comentou algumas vezes que chegou a fazer teste no Vasco, torce para o Corinthians, ainda mais que lá em 2002 o Angra gravou uma versão de “Pra Frente Brasil”. Queria saber um pouco sobre essa sua relação com o esporte e suas expectativas do que você tá esperando da Copa.
EF: Cara, eu amo futebol e amo jogar futebol. Gosto até mais do que assistir e torcer por algum time, no caso o Corinthians, a seleção e tal. Gosto, obviamente, mas eu gosto mesmo é de jogar. Minha paixão mesmo é jogar. Tive vários momentos assim em que quase foi. Muita gente fala: “Ainda bem que não foi, senão você não ia estar aqui com a gente como o Edu Falaschi, cantor e compositor”. Mas realmente era uma paixão, e ainda é. Sempre que posso, eu gosto de jogar. Gosto de jogar no campo.
Teve uma passagem engraçada. Uma vez eu estava jogando lá em São Vicente, na praia, e aquele dia eu estava jogando bem para caramba, fiz vários gols. Tinha um senhor assistindo, lembro da cena: ele de sunga verde com uma pochete, bem tiozinho, e me chamou para conversar. Resumindo, ele falou: “Pô, sou diretor do Palmeiras, vi que você joga bem para caramba. Você tem um clube? Você joga em algum time?”. Eu respondi: “Não, só estou estudando aqui em São Vicente, não tenho nenhum time”. E aí ele falou: “Pô, você não queria fazer um teste no Palmeiras na categoria da sua idade?”. Ele sacou o cartão e disse: “Entrega para a sua mãe e vê se ela fala comigo”, porque ele viu que eu era jovem.
Quando eu chego em casa, minha mãe, obviamente, falou: “O quê? Que jogador de futebol? Vai estudar! Vai para a faculdade!”. Aquela coisa azedona. Mas eu tentei. Ela falou que se eu morasse com a minha avó em São Paulo, porque eu teria que ir para lá e moraria no alojamento do Palmeiras se eu passasse na peneira. Então, eu ia ter que morar com a minha avó, mas ela não quis porque já estava de idade. Então foi uma coisa que não rolou, mas foram várias situações em que quase foi.
Amo muito futebol, gosto muito de jogar e obviamente vou torcer pelo Brasil. Apesar de que, de todas as seleções que eu já assisti, eu considero essa a mais, não vou falar fraca, porque é meio deselegante, mas é a menos empolgante, vamos dizer. São bons jogadores, todos jogam na Europa, a gente sabe que os caras têm técnica, mas não sei, é uma coisa que ainda não deu aquele brilho para mim, de olhar e falar: “Meu Deus, isso aqui pode dar alguma coisa, a gente pode ser campeão com essa formação”. Tem vários jogadores lá com quem eu não simpatizo, pelo jeito de jogar.
Muitos são considerados gênios e ídolos, mas para a minha geração, que cresceu com Zico, Sócrates, Falcão, e depois Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, eu acho muito aquém. Não dá para elevar esses caras a esse nível. Colocar na mesma gaveta que esses jogadores, não tem como. O futebol mudou, ficou mais rápido e mais físico, mas tecnicamente os caras são muito aquém na minha opinião. Tem momentos de brilhantismo? Tem, claro, acontece, mas os caras são pagos inclusive para isso, são profissionais e têm que ter.
Perto do que era, não é saudosismo, é fato. Você vê a jogada hoje e fala: “Caraca”. Tem umas coisas tão óbvias, a gente que joga bola vê o jogo e fica desesperado. Por que não tocou ali? Não fez isso? Não fez aquilo? Então é uma seleção que realmente não me empolgou ainda. Mas eu torço para o Brasil, espero que chegue pelo menos até a semifinal. Se o Brasil sair antes, vou torcer para Portugal, porque gosto muito do Cristiano Ronaldo. Então vou torcer para Portugal e ver no que dá.
WM: Agora vou entrar num assunto um pouquinho mais delicado, porque na audição você tinha mostrado um áudio da “The Ancestry” de como você sugere ideias para os guitarristas. Isso inevitavelmente acabou chegando no Roberto Barros, e ele fez um vídeo dando a opinião dele sobre as questões criativas da época do Vera Cruz. Eu queria saber como você recebeu esses comentários e o que você tem a dizer sobre a colaboração dele nos primeiros dois discos.
EF: Como eu falei na audição, a questão do vídeo era sobre como eu mostro ideias. Era só isso. Era um exemplo de como é engraçado. Na verdade, era uma brincadeira, você estava lá e você viu. Porque é uma coisa engraçada mesmo você imitar com a boca as coisas de guitarra e de bateria. Inclusive, eu falei das coisas que eu mostrei para o Aquiles também. Então, é uma situação engraçada, porque realmente eu não consigo tocar aquelas coisas. A minha única maneira de conseguir mostrar ideias é através de gravação, solfejando com a boca e tal. E muitas vezes soa engraçado, é só isso.
Sobre a questão dos dois discos, o Roberto me ajudou muito, principalmente nos arranjos do Vera Cruz e do Eldorado. Mas, como eu falei, eu gosto sempre de prezar o momento atual e o futuro. Então, eu estou bem focado agora no Mi’raj, um disco sensacional que vai encerrar essa trilogia com chave de ouro. E, graças a Deus, eu tenho o Victor Franco, que é um gênio, um moleque sensacional e de bom gosto extremo. Ele tem uma qualidade muito rara para um menino da idade dele, uma maturidade que é difícil uma pessoa com 20 e poucos anos ter, principalmente um guitarrista que está despontando e aparecendo. Ele tem os pés no chão, tem um carisma muito grande com o público e, fora isso, o talento musical de compor e de arranjar.
Eu até falei numa outra entrevista recentemente. Não lembro qual foi agora, talvez em vídeo, que vai sair ainda. Mas o solo de “Unchained”, aquele que ele desenvolveu logo depois do saxofone, cara, aquilo para mim está no mínimo no top 20 dos melhores solos criados na história do prog power. Aquele solo é genial mesmo, eu considero genial. Então, eu estou bem focado no presente, nas coisas que eu estou fazendo, e isso, para mim, é o que interessa: fazer música, fazer o que as pessoas esperam de mim, entregar boas canções que emocionem e se conectem com o público. E o Mi’raj tem isso.
É um disco um pouco mais sensível em questão filosófica do que os outros, porque fala sobre ascensão espiritual e ascensão pessoal, que é o momento que o Jorge está passando nessa história. São as dúvidas se ele realmente pode ascender como um personagem capaz de lutar contra aquele mal e derrotar as pessoas da Ordem da Cruz de Nero. Inclusive, até falei lá na audição e em outra entrevista também: toda a história dessa trilogia tem uma conexão direta com a minha própria história. É uma coisa pessoal minha que eu só vim revelar agora no Mi’raj, justamente porque é o final da trilogia e é o disco que fala sobre essa evolução como ser humano, como pessoa, como espírito e também como músico e compositor.
Você vê que é um disco que tem outras nuances, como eu te falei. Eu busquei novos caminhos, e muita gente tem falado que é o meu disco mais maduro como compositor. Essa é a ideia do Mi’raj. Então, estou bem focado nisso, focado no futuro, nos meus amigos que estão comigo na formação atual. O Jean Gardinalli destruiu na bateria, é um moleque novo, e o que ele fez nesse disco em questão de arranjo foi sensacional.
O Rafa Dafras, baixista que está comigo há muitos anos, não tem nem o que falar do que ele fez nas músicas e, principalmente, na The Ancestry, naquele groove de baixo onde ele nunca tinha mostrado esse lado. Tem várias coisas legais e novas nesse disco, e a gente ainda tem o Diogo [Mafra], que também gravou e fez alguns solos no álbum.
Eu estou focado nesse disco, com um monte de gente que está me ajudando, um monte de gente de coração bom e que estão comigo. Então, tem toda a formação que já toca comigo, tem o Tiago Mineiro, que tocou na “Intuição”, o Juninho Carelli, que tocou na “Echoes of Vows”, tem o Wagner Barbosa, que fez o solo da “Unchained”, tem o Rafael Bittencourt que fez o solo na “Intuição”. Cara, são várias pessoas que trabalham comigo: o meu irmão Tito Falaschi, o Fábio Caldeira, a Juliana Rossi que gravou os corais. Então, é muita gente envolvida, muita gente bacana, e eu, como eu te falei, estou em período de lançamento do disco. O meu foco é no futuro, na minha história e na minha música. E é isso, estou muito focado nas questões do Mi’raj mesmo e do futuro.
WM: Se você pudesse voltar lá atrás e dar um conselho para o Edu, lá da época do Mitrium, do Symbols, o que você gostaria de dizer para aquela sua versão jovem?
EF: Cara, tem muitas coisas para falar. Poderia falar muitas coisas, inclusive muitos conselhos. Mas o principal é: acredite naquilo que você gosta. Lute pelas coisas em que você acredita, continue lutando. Vai doer, vão ter pedras no meio do caminho. Vão ter pessoas que vão tentar te derrubar, vão ter várias situações pelas quais você vai passar, mas tudo isso vai valer a pena, porque no final você vai conquistar o que mais deseja, que é viver no universo musical, viver disso e estar inserido nesse universo que é a minha vida.
Sem a música, sem show, sem lançamento, sem músicas para cantar, principalmente ao vivo, e sem a presença do público, eu realmente ficaria muito triste. Então eu sou um dos caras felizardos que conseguiu realizar os seus sonhos. Eu diria para esse Edu novinho: olha, vai ser duro, não vai ser fácil, você vai lutar muito, vai demorar, mas vai valer a pena. Então, só continue. Acho que esse é o conselho que eu daria.
WM: E agora para a gente fechar, eu queria que você mandasse uma mensagem para o pessoal que acompanha o site. E falar o que a gente pode esperar do disco e o que o futuro reserva para o Edu daqui para frente?
EF: Primeiramente, agradecer a vocês pelo apoio de sempre. A gente está sempre junto. Vocês estão sempre divulgando minhas coisas. Eu agradeço muito. Vocês não têm obrigação nenhuma de fazer isso e estão sempre postando coisas sobre o meu trabalho. Às vezes com críticas, e também é importante, porque com as críticas a gente também cresce. A gente enxerga que, às vezes, aquela crítica foi legal porque eu posso melhorar em certo quesito. Então, quero agradecer a todos vocês por essa força.
Em segundo, aos fãs do Wikimetal que acompanham meu trabalho. Dia 12 de junho, no Dia dos Namorados, vai sair o disco em todas as plataformas digitais do Brasil, só no Brasil. O lançamento inicial é só no Brasil, e em agosto no resto do mundo. Eu priorizei realmente o meu país para ter essa diferenciação. Então, se puderem, deem um like, se inscrevam lá no meu canal do YouTube, onde a gente está lançando videoclipes e lyric videos, e sigam as minhas plataformas. Passem a me seguir no Spotify, no Deezer, onde você quiser. Acompanhem meus lançamentos e me sigam lá no Instagram, que você será muito bem-vindo.
E é isso, muito obrigado pelo carinho de todos, e espero que todos, inclusive, compareçam. É importante falar que tem a turnê: em agosto começa a Mi’raj & Legacy Tour, que é a turnê do disco novo e também sobre os 35 anos, onde eu vou tocar várias músicas de toda a minha carreira. Então compareçam aos shows, tem vários já anunciados: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Recife, Florianópolis, Porto Alegre, e muitos outros ainda vão ser anunciados. Venham com a gente, vamos para o show cantar essas músicas ao vivo.
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Via: WikiMetal
