Conhecido internacionalmente como o baterista do Dr. Sin, Ivan Busic lança nesta sexta-feira, 31, Into The Blues, seu segundo álbum solo. O disco está com pré-venda disponível na Wikimetal Store.
Após explorar o rock and roll em Rock and Road (2013), o artista brasileiro volta às suas origens e faz uma viagem por um dos estilos mais importantes em sua formação musical: o blues, cuja influência veio diretamente de seu pai, André.
No álbum, Ivan assume seu lado mais intimista como músico, mostrando que as baquetas não são a sua única forma de fazer música, entregando sua faceta instrumental mais completa até hoje. É possível notar uma amostra de sua versatilidade musical nos singles “Let The Night Roll In” e “She’s Got the Devil in Her Step”.
Em entrevista ao Wikimetal, Ivan falou o que espera da reação dos fãs de rock e metal ao seu novo trabalho, a importância do estilo em sua vida e o significado de duas músicas do álbum em questão. O músico ainda explicou como foi o processo de captação e gravação do disco e falou como planeja incluí-lo em suas apresentações daqui para a frente. Leia na íntegra.
Wikimetal: Sua imagem sempre foi atrelada ao Dr. Sin. mas muitos dos seus fãs talvez não saibam das suas raízes no blues. Como você acha que o público que está acostumado a te ver no hard rock e até mesmo no metal vai reagir a esse seu lado mais intimista?
Ivan Busic: A gente sabe que são muitas pessoas, então nem todos os que se aprofundam mais na história dos componentes, principalmente do Dr. Sin, sabem dessa minha história, desse meu envolvimento com meu pai, com meu irmão, no mundo do jazz e do blues. Mas acho que sempre tem pessoas que vão surgindo também, ou que não estão por dentro do assunto.
Eu acredito que, como o blues é um parente, ele é o avô do rock and roll. Eu acho que o blues e o jazz andam juntos, são coisas que andam muito juntas, o jazz, o blues e o rock and roll. Então, acho que as pessoas tendem a alguns talvez estranharem. Primeiramente, porque eu não estou na bateria no show. No disco, eu gravei a bateria, mas no show eu faço guitarra, violão, gaita, voz, e tem um outro batera. Acho que essa vai ser talvez a coisa que seja um pouquinho mais estranha para a galera que me acompanha há 45 anos tocando bateria.
Temas abordados em ‘Into The Blues’
WM: Historicamente, a gente sabe que o blues sempre foi uma música que conta histórias. Que temas e sentimentos o Into the Blues aborda?
IB: Exatamente. Eu acho que uma das coisas mais bonitas sobre qualquer estilo musical é a história que vem junto. E o blues, acima de todos os estilos, eu acredito, ele tem toda essa coisa da história de como começou o blues, da história dos escravos, do sofrimento humano, de como o sofrimento pode acabar se transformando em cultura, como foi o exemplo do blues, que nasceu realmente num período terrível da humanidade com a escravidão, onde eles cantavam nas plantações, nos campos, e se lamentavam através de ritmos e sons, que acabaram gerando o chamado blues.
Graças a esse estilo, nasceu o jazz, nasceu o bebop, nasceu o rock, nasceu o metal, nasceu tudo, graças a alguém ter começado o blues lá atrás. E no meu álbum não é diferente, porque tudo que compus na minha vida e o jeito que eu lido e sinto a música, seja o estilo que for, tem sempre uma história, tem sempre muita profundidade na questão de sentimento. Porque música para mim, apesar de ser a coisa mais incrível para você relaxar, ou espairecer e tal, é também uma forma de comunicação do que está dentro do nosso coração, da alma, da cabeça, de você conseguir se expressar através da música.
E mais do que nunca eu acredito que nesse disco eu tive uma grande sorte de ter uma super inspiração, as músicas surgiram com muita verdade e com muita “facilidade”.. Facilidade na questão de que, em 14 dias, eu compus e gravei 14 músicas. Então foi uma coisa muito do fundo da minha alma. E eu senti muito durante a composição desse disco, que inclusive é um tributo ao meu pai, eu senti muito a presença dos meus pais. As lembranças, tudo que aprendi sobre blues.
E, obviamente, toda a influência que eu tenho dos mestres do blues. Desde Robert Johnson,John Lee Hooker, Muddy Waters, todos os Kings: B.B. King,Freddie King, Albert King, etc. Tudo isso estava muito latente no período em que fiz o disco. E era um sonho antigo meu mostrar esse meu lado, colocar isso para que meus fãs e a galera que também não me conhece possa apreciar.
Influências familiares
WM: E como você comentou, a influência do blues e do jazz veio do seu pai, ainda na infância. Como foi relembrar essas memórias afetivas para compor o disco?
IB: Eu acho que foi um dos fatores principais. Porque realmente, quando se fala aquela frase, nasceu em berço musical, foi exatamente o que aconteceu com a gente. Eu tenho lembranças da gente bebê e o som rolando na casa. O jazz, principalmente, era o jazz na época, mas o jazz e o blues andam muito juntos. E no caso do meu pai, muito mesmo. Porque mesmo nos shows de jazz tradicional, ele cantava músicas de blues ultra raiz. Então assim, a gente cresceu com isso.
Eu senti muito a presença do meu pai e de tudo que a gente aprendeu com ele. No caso, eu falo a gente, quando lembro eu e meu irmão [Andria Busic]. Tantas milhares de noites tocando em casas de jazz, em eventos tocando blues e jazz com ele. E saber também que foi ele e a turma de jazz que tocava com ele que nos apresentou, que nos levou e nos mostrou pela primeira vez Deep Purple, Led Zeppelin, Beatles. E, através deles, também a gente foi para o rock and roll. E o amor sempre foi dividido. Dividido não, andou junto.
Explicação por trás das faixas “Lemon Pie” e “Big Bo Gator”
WM: A tracklist do álbum tem umas músicas com nomes muito interessantes, como “Lemon Pie” e “Big Bo Gator”. O que tem por trás dessas faixas? Tem alguma história que envolve o nome delas?
IB: Sim, “Lemon Pie” foi a primeira composição. Eu estava tomando um banho quando minha esposa colocou o primeiro álbum do Fleetwood Mac, da era do Peter Green. E, cara, aquilo me acendeu um negócio. Aquela atmosfera do disco, eu falei que queria essa atmosfera e que ia gravar um trabalho. Eu saí do banho já montando a bateria na sala, plugando guitarra, puxando o baixo, já separando tudo e saí gravando. Assim que saí do banho, começou o disco.
E “Lemon Pie” foi a primeira delas, que nasceu exatamente nesse primeiro dia. Eu compus ela durante o banho, porque imagino uma situação de você brincar com aquela pessoa que você ama, que tem o lado doce e o lado mais ácido, como aquelas bebidas Whiskey sour, que tem o salzinho, mas ela é doce. Então as pessoas em geral têm esses lados. Você pode estar vivendo um momento ultra dócil e depois, num outro momento, você está amargo, azedo, e se fala disso. A letra fala: “you’re so sweet and bitter sometimes” (Você é muito doce, mas às vezes você é azeda).
E o blues tem muito disso. O blues, além do lamento, é também uma forma de se expressar para as pessoas próximas, para os amigos, para a mulher que você ama, até para histórias mais irônicas, tem muitas coisas críticas. Tem composições como “Spoonful”, que ficou famosa com o Howlin’ Wolf, que é uma crítica daquela colherada cheia de diamantes ou cheia de perigos.
E a outra que você falou foi “Big Bo Gator”. Foi baseada na realidade de um amigo meu de quando eu morava nos Estados Unidos, que veio da região pantanosa de lá. E ele me contou sobre um amigo dele que era o Big Bo Gator, que criava crocodilos, ele criava répteis, lidava com isso e acabou trabalhando com isso também. E quando ele contava que esse cara não trocaria o pântano por nenhum dinheiro para ir para a cidade grande, ele gostava de viver nos pântanos e com os répteis que ele amava. Isso ficou na minha cabeça desde sempre, eu falei: “vou fazer uma música sobre isso”.
E ela tem uma coisa bem mais animada, tem um pouco da influência do Jerry Reed, que foi outro cara que a gente sempre se inspirou também. Ele é mais voltado para uma música country, mas com muita influência cajun, que é aquela coisa do pântano americano. Tem muito de Jerry Reed nessa música, mas tem muito também da minha influência de Bluesbreakers, que é a principal banda do blues inglês, que tinha o Eric Clapton e o John Mayall, desse álbum que mudou o mundo, na minha opinião.
WM: Falando ainda das músicas, A “Let The Night Roll In” foge um pouco daquele som melancólico e introspectivo que caracteriza o blues. Ela é uma música bem festiva. Neste álbum, você enxerga o estilo dessa forma?
IB: Eu acho que tem um pouco de tudo. Tem música que fala sobre o cara que está achando que, quando sair da cadeia, a esposa estaria à espera dele, mas ela andou, o tempo passou e ela não estava mais em casa. Essa coisa é do cotidiano de muita gente também, pessoas já viveram isso, uma coisa bem blues, mais para baixo mesmo. Ao mesmo tempo, tem a “Let The Night Roll In”. Como eu falei, o blues também era usado para momentos de muita força, de energia, de alegria. No caso da “Let The Night Roll In”, é o cara querendo tomar uma dose de bourbon para tomar coragem para falar com alguém com quem ele não tem coragem de falar e ele vai achar um momento.
Enquanto isso, você tem aquela atmosfera de que está num bar onde o blues está rolando, a guitarra está rolando e você está tomando um drink. É um astral também muito presente nas atmosferas dos discos de blues. O legal é que acho que consegui contar várias histórias, cada melodia que me vinha na cabeça me remetia a algum tipo de história que primeiro tivesse alguma coisa a ver comigo e segundo que tivesse muito dentro do histórico do que é o blues.
Até porque eu acho que, sem egocentrismo, acredito que talvez um público meu que não seja tão aprofundado no blues possa usar o disco Into the Blues como uma grande ponte para conhecer mais e adentrar esse universo mágico do blues. Eu não sei nem descrever, porque eu amo tanto o blues, sempre amei tanto o blues quanto eu amo o rock.
WM: Como você citou, Muddy Waters, Howlin’ Wolf e B.B. King são muitas das suas inspirações. Mas, como você sendo baterista, você acha que teve um desafio meio que desacelerar para conseguir achar aquele feeling que caracteriza o blues?
IB: Eu acho que, como eu tive durante 40 anos a chance de tocar com grandes músicos de jazz e blues, sempre liderados pelo meu pai 98% das vezes, eu fui aprendendo através do tempo, desde criança, como se portar, como funciona a bateria do jazz e como funciona a bateria do blues. Que é, por exemplo, no formato que gravei, utilizando apenas dois microfones para captar a sonoridade exata do que eu sonhava.
Porém eu já vou te adiantar que eu vou acabar tendo que, em algum momento, contar alguns casos para alguns amigos meus bateristas e músicos que vão querer saber sobre a produção do disco e a captação. Porque eu coloquei um microfone na frente da bateria e um outro microfone num banheiro que tinha próximo para captar o reverb.
Só que o detalhe é: você não pode sentar a mão da mesma força que eu utilizo nas bandas de metal ou de rock para tocar blues. A sonoridade é outra. E músicas às vezes que parecem soar até mais pesadas do que música de metal. Um exemplo que eu posso dizer: tem músicas do Led Zeppelin que eu acho mais pesadas do que qualquer banda de thrash, de heavy metal, de death metal, porque? Sonoramente, de frequências, de peso mesmo, de você ouvir aquele bumbo e falar: parece um canhão esse bumbo.
E a concepção vem justamente de como você afina a bateria, que tipo de bateria você usa, como você toca ela. Então, acredito que dei muita sorte, porque quando eu escuto o disco, eu lembro que já passei por todo tipo de superprodução que você possa imaginar em termos de gravar bateria. Gravando pelos estúdios pelo mundo afora, já tive a experiência do cara colocar cinco microfones dentro do bumbo, três microfones em cada tom-tom. Como foi, por exemplo, no primeiro disco do Dr. Sin, produzido pelo Stephan Galphas. Eu quis exatamente o contrário. Quis que meu disco soasse como se eu tivesse gravado ele no máximo em 1960. E eu fiquei muito feliz com o resultado.
Significado do álbum para Ivan Busic
WM: O que o Into the Blues significa para você e qual a mensagem principal que você deseja passar para quem vai ouvir ele?
IB: Pessoalmente, para mim, eu começo dizendo que ele é um tributo e um presente, um agradecimento a tudo que meu pai me ensinou musicalmente e me inspirou. E também uma realização de vida, porque eu consegui fazer um disco de blues que eu sinto que veio do fundo da minha alma. Ele veio para inspirar os meus próximos dias também.
Ele veio para trazer novos shows, para trazer uma nova forma de contato musical com muitas pessoas novas, e muitas pessoas e fãs antigos num formato diferenciado. Porque o blues fala muito alto com as pessoas, se a pessoa se conecta. A mensagem que eu espero que a pessoa sinta é a mesma que eu sinto quando escuto o álbum. Que ele possa te trazer momentos de reflexão, de inspiração para você ter força nos seus dias.
Quando eu escuto o disco na estrada, eu acho que ele traz uma coisa magnífica no sentido de você começar a olhar para as coisas de uma forma diferente. Eu sempre fui da opinião de que música tem gosto, tem cheiro, remete a lugares. Acho que esse disco vai ser o endereço de muitos lugares, vai ser o gosto e o cheiro de muitas coisas para muitas pessoas. Espero que ele também sirva de conexão para as pessoas em vários sentidos. As pessoas escolhem, o destino vai escolher que tipo de conexão, mas que conecte as pessoas através de uma música que, na minha opinião, talvez seja o disco mais importante que eu já gravei.
Projetos futuros com o disco após o lançamento
WM: Quais são os seus planos com o disco? Você planeja fazer uma turnê do álbum pelo Brasil?
IB: Na minha opinião, isso vai ser uma coisa agora para a carreira também. Vou levar para todos os shows que eu puder fazer, festivais que eu puder fazer no Brasil, fora do Brasil, onde chamarem eu irei. Até porque eu estou com uma super banda. A princípio, essa é a banda, mas claro, pode haver modificações, a gente nunca sabe, todo mundo é super ocupado. Mas eu tenho uma super banda agora para esse início.
Como eu falei, o disco foi gravado 90% por mim, mas no show eu tenho o Roy Carlini, sangue real, filho do Luiz Carlini, Henrique Cesarino, mestre no baixo da banda Hurricanes, Jimmy Papom, que também toca no Hurricanes e com muita gente, é um gênio, e o Juliano Mileo na bateria. E é uma super banda. Eu espero que a gente possa girar o mundo tocando. Independente do que eu faça, que o show de blues e a carreira de blues sigam em frente com muitos discos que virão.
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Via: WikiMetal
