
Em novembro de 1988, a banda nova-iorquina Manowar lançou seu sexto álbum de estúdio, Kings of Metal, eleito pelo Loudwire como o 13º melhor disco de power metal de todos os tempos.
Mais do que entregar um conjunto de faixas sobre batalhas e glória, o álbum ajudou a construir a identidade de uma banda que transformou sua devoção ao heavy metal em mitologia própria.
Nesse universo, o metal não é apenas um gênero musical, mas uma irmandade, quase como um código de honra, onde a banda deixa de ser vista apenas como um grupo de músicos para assumir a forma de uma grande persona: um herói que vive na estrada, enfrenta inimigos e permanece imbatível diante dos desafios.
Produzido pela própria banda e gravado na Atlantic Records, nos Estados Unidos, Kings of Metal traz, em último voo, a formação clássica composta por Eric Adams nos vocais, Ross the Boss na guitarra, Joey DeMaio no baixo e Scott Columbus na bateria.
O trabalho marcou o último álbum de estúdio do grupo com Ross, guitarrista fundador que morreu em março deste ano, aos 72 anos, após 8 anos de estrada com a banda.
O sexto álbum
Ouvir Kings of Metal em sequência é uma experiência bem imersiva para quem valoriza a força de um bom ao vivo e, enquanto fãs do gênero, sabemos que é justamente no palco que uma banda pode se superar (e isso nem sempre significa algo positivo).
Penso que o desafio mora em reproduzir ao vivo a mesma grandiosidade dos álbuns, só que, em Kings of Metal, isso parece acontecer de forma quase natural, justamente porque as músicas já carregam coros, pausas e explosões pensadas para ganhar outra dimensão diante de uma plateia.
Por isso, “Wheels of Fire” já abre alas em alta velocidade. A bateria acelerada, o refrão marcante e o potente solo de guitarra funcionam como uma amostra do que nos aguarda ao longo do disco.
Na sequência, a energia continua lá em cima na faixa-título, “Kings of Metal”, que em alguns momentos me lembrou o hard rock de bandas como Heart e KISS. Nesta faixa, vemos claramente a persona Manowar falando de si como uma grande entidade: alguém que vive na estrada e, claro, não pode ser derrotada.
Os agudos de Adams ajudam bastante a sustentar essa figura grandiosa, enquanto o refrão, com invocações como “Manowar, kill!”, tem toda a cara de uma música feita para levantar o público.
Inclusive, é fácil imaginar todo mundo cantando essa em um show e foi justamente por isso que ela entrou para a lista das minhas preferidas do álbum.
Depois destes dois eventos, “Heart of Steel” pisa no freio e abre espaço para uma baladinha sobre coragem, perseverança e a importância de continuar tentando, mesmo quando tudo parece jogar contra.
A mensagem é simples, mas funciona, especialmente pela interpretação de Adams, que transforma a música em um dos momentos mais emocionantes do álbum.
Como sou fã declarada de baladinhas, não tinha muito como dar errado: “Heart of Steel” naturalmente ganhou seu lugar entre os destaques.
Música clássica, baixo e coros grandiosos
“Sting of the Bumblebee” volta a acelerar o álbum, mas foge completamente do óbvio. Totalmente instrumental, a composição coloca o baixo de Joey DeMaio como protagonista.
Vale lembrar que a faixa é uma adaptação de “Flight of the Bumblebee”, de Nikolai Rimsky-Korsakov, executada no baixo elétrico (via Galaxy Music Notes).
Porém, quando ouvi a música pela primeira vez, lembrei-me bastante da intensidade do atemporal “L’Inverno”, do grande instrumentalista italiano Antonio Vivaldi.
Na sequência, “The Crown and the Ring” abandona a velocidade e os solos para investir em uma atmosfera mais solene. Gravada com a participação do Canoldir Male Choir na St. Paul’s Church, em Birmingham, a música se apoia principalmente nos vocais, no órgão e no enorme coro masculino (via Metal Archives).
Essa é uma daquelas músicas que poderiam tranquilamente embalar uma grande cena de batalha, com reis, rainhas e exércitos avançando ao fundo.
Sobre esta faixa, a minha leitura é que a composição não parece tão interessada em exibir técnica, mas, sim, em criar um momento de união entre banda e público, como se todo mundo estivesse participando do mesmo grande coro.
É, claramente, o tipo de música que ganha uma dimensão ainda mais bonita ao vivo quando o público conhece a letra (a exemplo da emoção provocada por “The Bard’s Song”, do Blind Guardian).
A parte final da jornada de ‘Kings of Metal’
“Kingdom Come” e “Pleasure Slave” entram naquele território em que bastam poucos segundos para reconhecer a assinatura da banda. As duas faixas seguem caminhos diferentes, mas carregam tudo o que esperamos (e gostamos) de ouvir: peso, narrativas grandiosas e uma guitarra pronta para roubar a cena.
Em “Hail and Kill”, vemos exatamente aquele Manowar que a gente espera ouvir.
A música começa mais contida, vai criando tensão e então desaba em um refrão explosivo, com Adams interpretando cada verso como se estivesse convocando um exército e Ross deixando a guitarra ocupar todo o espaço que merece. É daquelas músicas que não apenas convidam o público a cantar, mas praticamente não dão outra opção.
Em “The Warrior’s Prayer”, a teatralidade vai mais longe: a faixa funciona como um conto narrado por um avô ao neto e, por alguns minutos, o álbum deixa de ser apenas uma sequência musical para virar uma história contada ao redor de uma fogueira. Exércitos, guerreiros e deuses da guerra aparecem em cena até a revelação final: “They were the Metal Kings!”.
E é justamente essa frase que abre as portas para “Blood of the Kings”.
Depois de toda essa preparação, o encerramento chega com a energia lá em cima, vocais marcantes, guitarra forte e uma melodia que gruda na cabeça. Em cerca de sete minutos e meio, a faixa reúne boa parte do que Kings of Metal vinha construindo até ali e funciona como a conclusão de uma longa jornada.
Um álbum feito para ser vivido ao vivo
A principal sensação que tive ao ouvir Kings of Metal é que esse disco nasceu para o palco, porque faz a gente se imaginar no meio da plateia, com as luzes piscando, o pescoço dolorido de tanto balançar e aquela vontade imediata de saber quando será o próximo show.
E, claro, a vocação do álbum para o ao vivo continua presente décadas depois.
Em novembro de 2025, a banda anunciou a turnê Kings of Metal Fighting the World Tour 2027, com apresentações em que pretende tocar o álbum na íntegra, além de outros clássicos da carreira.
Para quem já é fã, toda essa narrativa épica e a veneração ao heavy metal que mudou tantas vidas são naturalmente envolventes.
Já para você, que não conhece o Manowar, o álbum também funciona como uma boa resposta para uma pergunta bem direta: afinal, quem são esses tais reis do metal?
Em poucas palavras, eles são exagerados, teatrais e totalmente comprometidos com o universo que construíram. Em Kings of Metal, essa identidade aparece de forma muito clara.
Entre os meus destaques estão “Kings of Metal”, “Heart of Steel”, “Sting of the Bumblebee” e “The Crown and the Ring”, mas a força do disco está mesmo na experiência completa.
Não é um álbum do qual eu somente ouviria algumas músicas soltas, justamente por ser daqueles que pedem audição do começo ao fim.
Kings of Metal não apenas celebra o heavy metal, mas o transforma em personagem, mitologia e campo de batalha.
E, por isso, quando o último acorde termina, sobra a mesma sensação após ver um grande show: vontade de ficar na plateia um pouco mais.
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Via: WikiMetal
