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7 de setembro: Músicas de protesto que desafiam o Brasil

1 hora ago


Legião Urbana, Titãs e Sepultura. Crédito: Divulgação

O dia 7 de setembro marca a Independência do Brasil, proclamada por Dom Pedro I às margens do Ipiranga, em 1822. Mais de dois séculos depois, a ideia de independência também ganhou outras formas na cultura brasileira. No rock e na música de protesto, artistas transformaram críticas ao poder, à desigualdade e às instituições em canções que atravessaram gerações.

A história do rock nacional está diretamente ligada à contestação e à vontade de questionar as estruturas do país. Durante a ditadura militar, músicos encontraram maneiras de driblar a censura e transformar metáforas, ironias e frases diretas em instrumentos de crítica. Nos anos 1980, com a abertura política e o processo de redemocratização, bandas como Legião Urbana, Titãs e Capital Inicial levaram essas inquietações para um público ainda maior.

O protesto também ganhou força no heavy metal, com o Sepultura abordando violência, autoritarismo e conflitos sociais. Fora do rock tradicional, nomes como Cazuza, Raul Seixas e Gabriel, o Pensador ampliaram o alcance da música de contestação.

O Wikimetal listou abaixo canções que desafiaram o Brasil e seguem atemporais.

“Refuse/Resist” – Sepultura, do álbum Chaos A.D. (1993)

“Refuse/Resist” nasceu como uma manifestação direta contra autoritarismo, repressão e controle social. Max Cavalera contou que encontrou a expressão que inspirou o título em uma jaqueta vista no metrô de Nova York. A música foi em 1993, período em que o Sepultura já havia transformado sua sonoridade em uma das principais forças políticas do metal brasileiro.

A letra aborda a resistência diante da violência e das estruturas de poder, enquanto o videoclipe utiliza imagens de confrontos entre civis e forças de segurança. Iggor Cavalera posteriormente definiu a faixa “forte declaração contra o fascismo” e explicou que incorporou elementos de samba à bateria, aproximando a música das raízes brasileiras. Em entrevista ao Wikimetal, Max Cavalera também classificou “Refuse/Resist” como uma música de protesto e destacou a permanência de sua mensagem ao longo dos anos. Três décadas depois, a faixa continua sendo um dos exemplos mais conhecidos da tradição de protesto do metal brasileiro.

“Que País É Este” – Legião Urbana, do álbum Que País É Este (1987)

Renato Russo escreveu “Que País É Este” em 1978, ainda durante a ditadura militar e quando fazia parte do Aborto Elétrico. A canção só foi registrada oficialmente pela Legião Urbana em 1987, já durante o processo de redemocratização. A letra questiona a corrupção, a desigualdade, a violência e o funcionamento das instituições brasileiras. Em vez de mirar apenas um governo, Renato constrói um retrato mais amplo das contradições do país. A música também dialoga com uma frase que havia ganhado força no cenário político brasileiro durante os anos 1970.

“Que País É Este” se tornou um dos maiores símbolos da crítica social no rock nacional e continua sendo lembrada em diferentes momentos políticos do país, embora Renato Russo tenha uma ressalva: “Foi uma letra de revolta, natural. Não é tão aplicável e verdadeira, da forma como muitos pensam que ela seja. Afinal, há quem lute para respeitar a constituição deste país. Há homens públicos honestos”, disse em entrevista resgatada pelo Recanto das Letras.

“Polícia” – Titãs, do álbum Cabeça Dinossauro (1986)

“Polícia” nasceu de uma experiência pessoal de Tony Bellotto com o sistema policial brasileiro. O guitarrista foi preso em 1985 por porte de heroína, episódio que serviu de inspiração para a composição. A faixa entrou em Cabeça Dinossauro, álbum lançado em 1986 e marcado por uma abordagem mais agressiva e direta dos Titãs. Em entrevista ao programa Roda Viva, Tony Bellotto explicou que a música nasceu como um grito de revolta contra o abuso de poder e o contexto da época, e não como um ataque individual aos policiais.

A composição não defendia simplesmente a ausência da polícia, mas colocava em discussão a relação entre autoridade e indivíduo. O contexto político também era importante: o Brasil ainda deixava para trás duas décadas de ditadura militar, e a prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes ajudou a alimentar o clima de confronto que marcou Cabeça Dinossauro. A música permanece como um dos exemplos mais conhecidos de crítica à autoridade no rock brasileiro.

“Brasil” – Cazuza, do álbum Ideologia (1988)

Composta por Cazuza, George Israel e Nilo Romero, a música mira diretamente a política brasileira e as contradições do país durante o período de redemocratização. Cazuza transforma o próprio nome do país em uma provocação e questiona o discurso de progresso em um momento de forte frustração política. A composição ganhou ainda mais alcance quando foi gravada por Gal Costa para a abertura da novela Vale Tudo, levando sua crítica social a um público muito maior.

A faixa também surgiu em uma fase mais política da obra de Cazuza, que passou a abordar com frequência temas relacionados ao Brasil, à desigualdade e à corrupção. Em entrevista ao Cara a Cara com com Marília Gabriela, Cazuza confessou que se inspirou após ouvir a canção “Que País É Este?”, da Legião Urbana. Ele sentiu uma “inveja criativa” e percebeu que, em vez de focar apenas em desilusões amorosas, precisava falar de sua geração e do cenário político nacional.

“Sociedade Alternativa” – Raul Seixas, do álbum Gita (1974)

A música surgiu durante um dos períodos mais repressivos da ditadura militar brasileira. Raul Seixas e Paulo Coelho desenvolveram a ideia a partir dos princípios da Lei de Thelema, associados ao ocultista britânico Aleister Crowley. A proposta defendia liberdade individual e o direito de cada pessoa conduzir a própria vida, conceitos que ganharam um peso político particular em um país submetido à repressão. Embora a música tenha passado pela censura inicialmente, Raul e Paulo Coelho acabaram perseguidos pelas autoridades e deixaram o Brasil.

A música era parte de um projeto artístico que confrontava valores impostos pela sociedade e pelo Estado. “Era um trabalho no sentido de fazer uma reestruturação de todos os valores. Isso tudo acarretou em muitos prejuízos para mim. E a reestruturação, essa mudança de valores, não foi completa porque o governo não gostou”, disse Raul em entrevista à revista Bizz, em 1987.

“Até Quando?” – Gabriel, o Pensador, do álbum Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo) (2001)

Lançada em 2001, a faixa mostra que a música de protesto continuou presente mesmo depois da redemocratização brasileira e questiona o conformismo diante dos problemas sociais e políticos do país. Gabriel, o Pensador aborda temas como violência policial, desigualdade, desemprego, falta de educação e injustiça, mas também direciona sua crítica à passividade da população. “Essa música é muito emblemática. Ela fala da polícia que matou o estudante pra falar que era traficante, da injustiça, da repressão, da humilhação, das causas sociais e da alienação”, comentou o rapper em entrevista à TV Cultura.

O rapper explicou que queria provocar o ouvinte e fazê-lo refletir sobre sua própria postura diante dos problemas da sociedade. A música ganhou grande alcance e se tornou um dos principais exemplos de protesto brasileiro no início dos anos 2000. Diferentemente de composições criadas durante a ditadura, “Até Quando?” nasceu em plena democracia, mas mostra que liberdade política não significa ausência de desigualdade, violência ou injustiça. A pergunta presente no título continua funcionando como uma provocação ao público: até quando uma sociedade aceita conviver com aquilo que deseja mudar?

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Via: WikiMetal