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De Lúcifer a Nervosa: Artistas falam sobre ser mulher no rock e metal

4 horas ago


Ao longo das décadas, a presença da mulher no rock e no metal deixou de ser exceção para se tornar força criativa e protagonista. Se nos anos 70 e 80 elas precisavam romper barreiras em um ambiente majoritariamente masculino, hoje ocupam palcos, lideram bandas, comandam instrumentos e definem tendências. Ainda assim, os desafios persistem, seja no reconhecimento técnico, na representatividade ou nas oportunidades de mercado.

Pensando no dia 08 de março, Dia da Mulher, o Wikimetal conversou com Prika Amaral, Johanna Sadonis, Receba Li e outras artistas que fazem história dentro do estilo, quebrando padrões e tornando-se vozes ativas dentro de suas comunidades. 

“Cada vez mais mulheres conquistando seu espaço” 

A guitarrista e vocalista Prika Amaral é fundadora da Nervosa e uma das figuras mais influentes do thrash metal brasileiro. Desde a criação da banda, lidera o projeto com postura firme e visão internacional. Após mudanças na formação, assumiu também os vocais, marcando uma nova fase na trajetória do grupo. Sua atuação consolidou a Nervosa como um nome relevante no cenário global do metal. Para Prika, ser mulher no heavy metal hoje em dia é maravilhoso.

“Estamos vendo cada vez mais mulheres conquistando seu espaço e novos talentos surgindo a cada dia, a gente se conhecendo, a gente se conectando, se apoiando, aprendendo umas com as outras. E tem sido maravilhoso ver as mulheres aí fazendo sucesso e tendo seu espaço, uma relevância muito massa”, ressaltou Prika. 

A artista também falou sobre as dificuldades que enfrenta: “As maiores barreiras que existem, não só para as mulheres, mas acho que para os homens também, são a barreira mental e a barreira econômica, vamos dizer assim. Mental eu digo de você ter inseguranças, de achar que você não pode, que você não vai conseguir, ou que é muito tarde para você, lance de idade, coisas assim…”

Ela continuou: “Que são coisas que você tem que trabalhar no psicólogo, fazer um tratamento, porque na verdade todo mundo pode, não existe esse negócio de idade, não existe esse negócio de tempo e possibilidades. Se você realmente quer, você realmente vai fazer acontecer, mas tem a barreira econômica também, porque nem sempre todo mundo tem condições financeiras de comprar um instrumento, de ter tempo para estudar. Então, eu acho que essas são as maiores barreiras. Barreiras no geral, não necessariamente como mulher, porque eu acho que como mulher a gente não tem barreiras. A gente pode tudo”.

Por fim, Prika fala qual seria o mundo ideal para as mulheres no rock. “Um mundo como é hoje, que tem espaço para as mulheres, mas acredito eu que ainda está faltando o machismo ceder e começar a entender que sim, existem mulheres competentes e parar de subestimar a gente. Não é porque há um tempo não existiam mulheres tocando tal instrumento ou fazendo banda profissionalmente que as que existem hoje não podem estar fazendo isso bem. Eu acho que falta respeito como ser humano, na verdade. Apesar de ser isso de minoria, existe em todos os lugares, em todas as posições. Então, acho que isso é o que está faltando, mas essa é a nossa batalha. E a gente está lutando e conquistando o nosso espaço aos poucos”.

“As coisas só podem melhorar se houver comunicação e conscientização”

Johanna Sadonis é fundadora do Lucifer e uma das vozes mais marcantes do rock contemporâneo. Com forte influência do rock setentista, sua presença de palco e timbre característico ajudaram a consolidar o Lucifer no cenário internacional. Ao longo dos anos, Johanna manteve a essência clássica do gênero com uma abordagem moderna.

“Ser mulher no heavy metal hoje em dia parece ser muito mais fácil do que, digamos, nos anos 90. Trinta anos atrás, quando eu era adolescente e estava nas minhas primeiras bandas, a igualdade definitivamente não era prioridade. E as coisas mudaram muito. Parece haver muito mais mulheres na cena agora, e é um assunto que está sendo muito discutido”, explicou Johanna. 

Ele continuou: “Jornalistas musicais me procuram com frequência para falar sobre isso. E claro que isso é ótimo, porque as coisas só podem melhorar se houver comunicação e conscientização sobre o assunto. É claro que ainda existem algumas exceções, e eu percebo algumas diferenças culturais em diferentes países. Mas, no geral, eu diria que as coisas melhoraram, embora ainda haja trabalho a ser feito. Considero a cena do heavy metal bastante inclusiva. Então isso é ótimo”.

Ela afirma que ainda existem grandes barreiras para as mulheres, reflexo de mentalidades ultrapassadas que podem levar séculos para mudar. Segundo a artista, mulheres precisam se esforçar mais que homens para obter o mesmo respeito e reconhecimento, além de ainda enfrentarem abuso de poder. “Há muita gente que ainda vive com um pé na Idade Média. E isso tem a ver com a sua criação, com quem você convive. E vai levar tempo, provavelmente séculos, até que haja igualdade plena. Mas até lá, eu diria que seria ótimo se as mulheres fossem submetidas aos mesmos padrões que os homens. Parece que você precisa se esforçar muito mais para obter o mesmo respeito”.

Ela continuou: “É muito mais fácil para um homem fazer as mesmas coisas e obter reconhecimento por isso. Se você é uma mulher jovem e um pouco ingênua… Eu já estive nessa situação, assinei contratos porque confiava e agora, olhando para trás, anos depois, com mais experiência no ramo da música, percebo que definitivamente não deveria ter confiado e deveria ter contratado um advogado. Deveria ter consultado alguém. Mas, no geral, acho que isso é mais uma questão de caráter do que da cena heavy metal em si. Sabe, sempre haverá pessoas horríveis, mas esse tipo de abuso de poder contra mulheres, infelizmente, ainda existe em qualquer lugar”.

Para Johanna, um mundo ideal seria igualitário e inclusivo. “Se as pessoas que agem de forma sexista com uma mulher fossem repreendidas não só pelas próprias mulheres, mas também pelos homens que testemunham a situação, só para acabar com isso. E acho que também em casas de shows, muitas vezes não há espaço extra para uma mulher se trocar ou ter privacidade. Homens e mulheres têm necessidades diferentes, e geralmente isso não é levado em consideração se você se identifica de forma diferente. Então seria ótimo se as casas de shows prestassem um pouco mais de atenção a essas coisas. Há muitas coisas práticas que poderiam ser um pouco mais inclusivas”.

“Somos julgadas pela vitrine do que pela música”

Fundadora da The Damnnation, e uma das vozes em ascensão no metal nacional, Renata Petrelli combina presença de palco intensa com identidade vocal marcante. Desde a criação do grupo, participa ativamente do direcionamento artístico e da consolidação do nome no cenário underground. Sua atuação mostra a força feminina na nova geração do metal brasileiro.

Renata refletiu sobre ser mulher na música: “Apesar do crescente número de mais mulheres no palco e nos bastidores, precisamos provar mais a nossa capacidade, de que podemos fazer música de qualidade, que levamos a sério e sempre ficar nos provando para ainda um ramo majoritariamente masculino”. A artista também opinou sobre o que precisa ser feito para um ambiente melhor na música para mulheres. “Entender que música é música; não passar por ‘saia-justa’ em certas situações que ainda assim muitas de nós passamos. Muitas de nós somos julgadas pela vitrine do que pela música”.

Ela também reforçou quais são as maiores barreiras no cenário do metal. “Na cena metal, discursam muito de apoio entre as bandas, mas não é bem assim, isso entre bandas em geral, tanto masculinas quanto femininas. Existem muitas panelas e, para todas as bandas que começam, é bem exaustivo provar seu valor no meio. Se pensassem de verdade que ‘a união faz a força’, o cenário do metal brasileiro para o mundo seria ainda mais relevante. Arte no geral é pautada em gosto pessoal, então tem espaço para todo mundo”, disse Petrelli.

“Ser mulher no rock é ser resistência do início ao fim”

Rebeca Li, co-fundadora e baterista da MorCÊgula, banda de Uberlândia (MG), iniciou seus estudos musicais nos anos 1990 e, em 2005, formou sua primeira banda cover, sendo a única mulher na formação — experiência marcada por questionamentos constantes sobre sua capacidade.  “Ser mulher no rock é ser resistência do início ao fim, porque não faz muito tempo que o comum era se esperar que as mulheres estivessem na plateia, e quando algumas de nós ousam subir nos palcos, isso pode incomodar quem está lá há mais tempo, mas não muito seguro com sua posição”, ressaltou Li.

Em 2017, viveu um marco na carreira ao integrar sua primeira banda exclusivamente feminina, com repertório autoral que abordava vivências e abusos enfrentados por mulheres no rock. Defensora de espaços exclusivos para mulheres na música, ela destacou a importância de ambientes seguros e representativos para fortalecer novas gerações e encontra inspiração em outras artistas e reforça que ocupar palcos é também uma forma de resistência e transformação cultural. “Isso faz com que a gente consiga vivenciar e aprender com naturalidade como é na prática. Os meninos já fazem isso desde a adolescência, é natural chegarem no palco e se sentirem em casa se eles fazem isso desde os 15 anos no pátio da escola brincando com os amigos. As meninas da minha geração não ganhavam pandeiro e violão para brincar, isso tudo influencia muito a cena ser majoritariamente masculina.”

Ela continuou: “Me sinto em casa quando encontro garotas no palco, quando toco com elas, quando divido o camarim com mulheres – e não com homens – é ganhar na loteria no rock. Então, posso garantir que quando toco em eventos com mulheres, seja na produção ou nos palcos, as coisas fluem com mais leveza e tranquilidade, me sinto mais acolhida e muito mais respeitada. Acredito que, na medida em que vamos ocupando esse espaço, vamos também ensinando como queremos ser recebidas por quem já estava lá”.

Rebeca Li defende que a presença feminina em todos os espaços do rock é essencial para tornar o ambiente mais equilibrado. Segundo a artista, mulheres na produção e organização entendem melhor as demandas de quem está no palco, algo que muitas vezes passa despercebido pelos homens. “A maior barreira é não encontrar mulheres em todos os espaços. Ou seja, a solução é ocupar. Ocupem, meninas, vamos ocupar os palcos, os camarins, as produções, atrás das câmeras, atrás do palco, entrevistando, todas as funções precisam ser ocupadas também por mulheres para que a gente ande em equilíbrio”.

Para um mundo ideal para mulheres na música, ela destacou que, culturalmente, meninas foram menos incentivadas a tocar instrumentos desde a infância, o que impacta diretamente a presença feminina na música. Por isso, defende o estímulo musical para crianças, independentemente do gênero. “Nasci dentro da música e fui desde muito cedo apresentada ao rock, portanto eu acredito que o mundo começa a ser construído na educação das nossas meninas. Para o mundo ideal, vejo espaços de formação só para meninas, onde elas tenham aulas com mulheres e montem projetos com suas amiguinhas”.

Também afirmou que festivais e ambientes seguros para mulheres adultas são fundamentais, pois quanto mais elas tocam, mais confiança ganham para ocupar qualquer palco. “Festivais só com banda de mulheres fazem muita diferença na nossa vida, na vida de mulheres que querem começar a se sentir seguras nos palcos. A conta é simples, quanto mais tocamos, mais seguras ficamos, se não nos sentimos seguras nos espaços que temos, nunca iremos nos sentir seguras para tocar”.

“Esperam que eu seja submissa ou que simplesmente não entenda o que estou fazendo”

Yara Haag é reconhecida pela voz potente e presença de palco marcante. Ela está se destacando na cena do metal nacional à frente da banda de heavy metal Blades of Steel. Contribuindo para consolidar a identidade sonora da banda, a artista afirma que, embora muita coisa tenha melhorado na cena, ainda é muito difícil ser uma mulher no metal. “Vivemos em uma sociedade muito machista, e o metal não é muito diferente disso. Acho que estamos no caminho certo, conquistando cada vez mais nosso espaço, mas ainda precisamos nos provar todos os dias, tanto como musicistas quanto como pessoas que realmente gostam de metal. Isso deixa tudo muito cansativo, mas no final amamos tanto o metal que continuamos nessa batalha”.

“Para mim, particularmente, a maior barreira de ser mulher é que as pessoas às vezes acham que podem falar e fazer o que querem. Esperam que eu seja submissa ou que simplesmente não entenda o que estou fazendo. Muitas vezes não esperam uma resposta, ou se surpreendem quando veem que eu sei muito bem o que estou fazendo e falando. Muitas coisas acontecem só porque sou mulher e líder de uma banda; se fosse um cara, não seria dessa forma. Mas, no final, eu quero mais é que se lasquem: quem pensa assim vai ter que me engolir”, ressaltou ela.

Apesar disso, Yara diz que vive um pouco desse cenário ideal e sabe que tenho muita sorte. “Desde o começo do Blades of Steel, foram homens que me ajudaram a construir essa base, que acreditaram em mim, no meu trabalho e na essência da banda. Meu mundo ideal é que mais mulheres consigam esse respeito, pelo menos das pessoas que estão ao lado delas. Quem sabe um dia não precise mais falar sobre isso… Seria muito bom que as pessoas soubessem e respeitassem as minas”.

“Ainda recebo elogios indiretos e estranhos. Ainda me perguntam quem compôs os riffs”

Outra artista que também falou sobre o assunto, foi Serena Cherry, vocalista e guitarrista da banda britânica de metal extremo Svalbard. Além de liderar o grupo, Cherry também se destaca como letrista, abordando em suas composições temas como questões sociais, saúde mental e experiências pessoais. Para ela, ser mulher no metal hoje em dia é muito diferente de dez anos atrás: “Há mais mulheres nas bandas, mais mulheres liderando bandas, mais mulheres administrando gravadoras, festivais e fanzines. Você não é mais automaticamente ‘a garota da banda’ – você é apenas uma musicista em uma banda. 

Ela continuou: “E é assim que deveria ser. Mas ainda há espaço para melhorias. Ainda recebo elogios indiretos e estranhos. Me perguntam quem compôs os riffs. Ainda me dizem que ‘banda com vocal feminino é moda passageira’. Mas a grande mudança é esta: em termos numéricos, não somos mais novidades. Somos infraestrutura. Há também uma linda solidariedade agora, com as mulheres no metal realmente se apoiando mutuamente”.

Com uma abordagem intensa e emotiva, ela se tornou uma das vozes mais reconhecidas da cena alternativa pesada do Reino Unido, mas ainda encontra barreiras na cena da música pesada. “As pessoas não conseguem enxergar além da sua aparência. Quando o Arch Enemy anunciou sua nova vocalista, muitos comentários foram sobre a aparência dela. Isso me deixa bastante insegura porque muitas pessoas julgam o seu mérito como músico pela sua aparência e forma de se vestir. Não é uma barreira enorme. Mas algo que me incomoda é: ainda sou sempre descrita como ‘vocalista’ e nunca como guitarrista. Apesar de tocar guitarra solo em todos os meus projetos musicais (Noctule / Svalbard), além de cantar. Eu só quero ser reconhecida como guitarrista e não apenas chamada de “vocalista”, porque isso se encaixa melhor no estereótipo de vocalista feminina”, desabafou Serena. 

A vocalista e guitarrista também contou como seria o cenário ideal no rock e metal para mulheres: “Um mundo ideal para mulheres no rock seria muito parecido com o que vivemos hoje, mas com banheiros mais limpos nas casas de shows e mais espaços privativos para se arrumar antes de uma apresentação. E uma lixeira para absorventes higiênicos no banheiro de cada ônibus de turnê. Apenas pequenas melhorias práticas que nos fariam sentir mais acolhidas”.

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Jéssica Marinho

Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo).

Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento.

Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos – [email protected]





Via: WikiMetal