Menu

Dia do Disco de Vinil: Como o heavy metal mantém cultura da mídia física

3 horas ago


O Dia do Disco de Vinil, celebrado no Brasil em 20 de abril, marca uma das datas mais simbólicas para colecionadores. A comemoração homenageia o músico Ataulfo Alves, que morreu em 20 de abril de 1968. Dez anos depois, em 1978, no Rio de Janeiro, os saudosistas e colecionadores de discos decidiram dedicar esta data para celebrar a sua paixão pelo LP.

Com o passar dos anos, a data ganhou novo significado com a retomada do vinil no mercado global. Após um período de declínio com a ascensão do CD e do streaming, o formato voltou a crescer, impulsionado por audiófilos, colecionadores e novas gerações em busca de uma experiência mais autêntica.

A volta dos discos não é apenas nostálgica, mas também mercadológica. Grandes gravadoras e selos independentes passaram a relançar álbuns clássicos e investir em edições especiais, muitas vezes limitadas e com alto valor agregado, como por exemplo as editoras brasileiras Noize Records, Três Selos e Polysom

O investimento em discos de vinil: um hobby que exige planejamento

Dados do Discogs indicam que o mercado de discos segue em expansão, com crescimento anual nas vendas e aumento contínuo na movimentação de mídia física, com crescimento de 6,2% nas vendas de vinil, na comparação anual. Já no Brasil, de acordo com o relatório Mercado Brasileiro de Música (2025), produzido pela Associação Brasileira da Indústria Fonográfica (ABPD) – Pró-Música, o segmento de vendas de vinil teve um crescimento de 31,5%, alcançando o maior patamar desde 2017.

Apesar do aumento nas vendas, o preço de um disco pode ser um obstáculo, chegando a custar em média de R$150,00 a R$350,00. Mas ainda assim, colecionadores investem, como no caso de Carlos Ferracin, economista e colecionador desde 1983. “O preço é um obstáculo, ainda mais em um país que não valoriza a cultura como o Brasil. Eu sempre procuro ter o formato físico, seja em vinil ou CD, e considero o streaming um acessório. E existe outro detalhe: quando o fã de heavy metal e rock em geral adquire o formato físico, sabe que aquele item será desfrutado por muito tempo, algo que não acontece com fãs de música ‘popularesca’”, afirmou Carlos. 

Já para Heloísa Meleras, colecionadora, mais do que avaliar custo-benefício, a motivação está na conexão pessoal com a música: “Vale dar valor para nossos hobbies, dar valor à gente. Quando eu invisto neste formato, é um investimento na coleção, em algo que eu gosto, que comecei a colecionar por mim. É algo meu, é investir em mim e isso vale muito a pena”. 

Mesmo com os preços elevados, o colecionismo de disco é encarado como um hobby que exige planejamento e organização financeira. O consumidor busca alternativas como garimpo, compras parceladas e lojas independentes para viabilizar as aquisições, como a antropóloga e colecionadora Patrícia Araújo:

“Hoje os discos estão com preço bem elevado mesmo, mas eu também não tenho uma memória tão clara de comparação com outros momentos. De qualquer forma, eu encaro como um hobby que escolhi ter, então me organizo dentro da minha dinâmica para isso. Não sei se penso tanto em vale a pena ou não, é mais algo que eu quero e que faz sentido para mim. Também acho que, quanto mais cresce esse movimento de voltar para o vinil, mais tende a ter acesso, mais lojas, mais reedições, e isso pode ajudar a tornar os discos mais acessíveis no futuro.

Disco de vinil no universo do rock e heavy metal

No universo do rock e heavy metal, o fascínio pelo vinil vai além da música, sendo um dos estilos que mais simbolizam e mantêm este formato físico. Para fãs do gênero, capas icônicas, encartes detalhados e a sonoridade analógica fazem parte da cena. 

“A visão é o primeiro sentido aprendido ao nascer, se algo não lhe agrada aos olhos, você automaticamente reconhece e rejeita. Sem as capas icônicas, o heavy metal jamais estaria onde está, neste lugar de símbolo e cultura, por isso acredito na importância da capa para um disco de heavy metal”, disse o colecionador e vendedor Filipe Moriarty

Ouvir um LP envolve um ritual quase sagrado: retirar o disco da capa, posicioná-lo cuidadosamente na vitrola e acompanhar cada faixa com atenção. “O que me motiva e sempre motivou foi a sensação de ter a história nas mãos. Um disco, ainda mais se ele for da época em que o título foi lançado originalmente, tem um valor histórico. É como ser transportado no tempo. Em tempos de era digital, apelar para o material físico vintage é resistir, e para nós, heavy metal é resistência!”, afirmou Filipe. 

A relação entre o heavy metal e o disco de vinil vai além do formato físico e se insere no campo cultural do gênero. Desde suas origens, o metal construiu uma identidade fortemente ligada ao álbum como obra completa, valorizando não apenas a música, mas também a estética visual e o conceito artístico. 

“Como o estilo de música está vinculado a um estilo de vida, ‘cultuar’ o vinil em seus detalhes como peça e na sua formação e desenvolvimento, conta uma história importante para os fãs e está materializada e eternizada em cada disco. Compro discos não pensando em colecioná-los, e sim em ter os discos de que eu realmente gosto. Seja um clássico ou um lançamento novo que eu curto, acabo comprando o disco quando a oportunidade aparece”, afirmou Maurício Boka, colecionador e baterista do APNEA e Ratos de Porão.

Nesse contexto, o vinil se tornou um símbolo dessa experiência. Mesmo com a evolução tecnológica, o formato segue presente na cena como um elemento de resistência e autenticidade, tanto para colecionadores quanto para novas bandas da cena que lançam seus álbuns nesse formato. “Eu gosto da história por trás do disco. Estúdio, produção, arte, fotos, tudo isso faz parte da viagem de apreciar um álbum, seja ele mais antigo ou mais novo. De repente, um disco mais velho traz um romantismo e uma mística maior, mas eu ‘viajo’ em ambos. O disco é parte da cultura e do estilo de música. É importante novas bandas continuarem contando suas histórias e registrando momentos históricos por meio dos discos”, disse Boka. 

Para Carlos Ferracin, é algo sentimental e faz parte de outros estilos musicais: “Eu acho que tem mais a ver com como cresci ouvindo música do que ser um ‘ritual’. É claro que ouvir um álbum de uma banda de que gosto, acompanhando as letras e vendo os detalhes da parte visual, é diferente… Lembro que, quando peguei o Somewhere in Time pela primeira vez, fiquei um tempo vendo os detalhes da capa com uma lupa. Isso não faz parte só da ‘cultura do heavy metal’, mas de quem é amante da música em si. Por exemplo, se eu pesquisar Mayhem em qualquer site de vendas além da banda de black metal, aparece também o último álbum da Lady Gaga – e são várias versões. Então, dá para deduzir que existem consumidores fiéis daquele estilo musical”. 

Capa e contracapa do 'Somewhere in Time'. Créditos: Reprodução/Capa
Capa e contracapa do ‘Somewhere in Time’. Créditos: Reprodução/Capa

A cultura do disco passada por gerações

O disco de vinil atravessou gerações e, mesmo após o auge nas décadas passadas, segue conquistando novos públicos. Entre jovens fãs de heavy metal, muitos que não viveram a era de ouro do formato têm buscado álbuns clássicos em LP como forma de se conectar com a história do gênero, como o jornalista  Vitor Melo, de apenas 25 anos, mas que é consumidor assíduo de discos. 

“A experiência de colocar a agulha no início do disco e ouvir aquele chiado inicial é algo mágico. Desde pequeno, eu sempre gostei de folhear encartes, livros e revistas. Penso que não há nada melhor do que colocar algo para tocar e ir acompanhando a audição, lendo as letras e até os agradecimentos que os músicos colocam em seus trabalhos. Eu sempre imagino como era antigamente. Os discos eram lançados e as pessoas precisavam ir a uma loja comprar e ter o aparelho também”, disse ele. 

Mais do que um item colecionável, o vinil representa uma experiência. Ter um álbum para tocar permanece como um elemento essencial da cultura metal, agora ressignificado por uma nova geração. Embora muitos jovens enxerguem o vinil como algo mais retrô e adquiram por modismo ou estética, há quem tenha discos pela qualidade de som e conexão com a cena. “Como fã de metal e hard rock, eu sinto que pegar o disco na mão, sentir a vibe faz parte disso. Também faz parte do apego emocional. Comecei a gostar de vinil porque meu pai tinha uma coleção do KISS. Então, comecei a gostar de rock e discos por causa dele”, comentou Heloísa Meleras.

A colecionadora e influencer Jéssica Valentín não viveu o auge do formato físico, mas montou sua coleção e atualmente fala sobre discos. Para ela, não é só modismo: “Vejo mais como uma conexão comigo mesma e com a arte no geral. A qualidade do som não é a melhor disponível e não vejo com bons olhos quem encara isso somente como estética, torna o hábito passageiro e acaba encarecendo”.

Mas também é uma forma de apoiar os artistas. “É uma forma de continuar apoiando meus artistas favoritos a seguir em carreira, visto que hoje a maior parte dos rendimentos vem de tours/merchandising, com o crescimento de streamings. Apoiar a mídia física é manter viva a música”, disse Jéssica.

Amante de rock e heavy metal, teve seu primeiro contato com CDs e a independência financeira é fator principal para montar sua coleção: “Cheguei a pegar fitas, VHS, LPs. Foi bem no período de transição para CDs e DVDs… Voltar ao vinil me trouxe algo novo, pois na época não tinha acesso a tantos LPs e hoje, com meu próprio dinheiro, posso fazer parte de algo que sempre quis”.

LEIA TAMBÉM: David Ellefson avalia álbum final do Megadeth: “É um disco solo do Dave”

Jéssica Marinho

Repórter e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo).

Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, The Metal Circus (Espanha) Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento.

Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos – [email protected]





Via: WikiMetal