
Após um intervalo de dois anos, Varukers voltou à capital paulista na última sexta-feira, 08, continuando uma sequência de shows marcados pelo país e trazendo novamente toda a sua energia caótica e resistência que ultrapassou gerações, unindo vertentes do punk no Cine Joia, em São Paulo.
A noite foi de festa, como bem cantou Replicantes nos anos 1980, e o que foi anunciado somente como um show de turnê da lendária banda da segunda onda do punk inglês, se transformou em um festival que celebrou o legado da contracultura e tudo que surgiu a partir da sonoridade suja, irreverente e direta do grupo, que influenciou grandes nomes do metal por causa do d-beat.
Desde a denúncia à sociedade patriarcal das Ratas Rabiosas, passando pela mistura de linguagens artísticas da Asfixia Social, aos solos virtuosos da Eskrota até à entrada de João Gordo, fruto da mesma verve em que Rat disseminou – único membro original do Varukers, se juntou ao vocalista para cantar os hinos do grupo -, a noite foi marcada pela diversidade, pelo reconhecimento e respeito entre as bandas, assim como rodas insanas, slamdance, fãs ensandecidos subindo ao palco para cantar e tirar selfies.
Além dos próprios integrantes desconstruindo o conceito de palco e se juntando ao público no chão, como se fosse uma grande festa em família, sem perder o timing e o espaço para levantar a bandeira de rebeldia com muita causa do punk.
Que arda o machismo
Com a bandeira da banda fincada nas paredes do antigo cinema, as Ratas Rabiosas – nome de uma música das referências em quesito punk espanhol Eskorbuto e inspiração musical para a própria banda – abriram a noite com chave de braço e com seu manifesto político e social que já é disseminado há anos na cena musical, tanto do punk quanto do hardcore. Sem concessões, sem abaixar o tom; tanto com sua mensagem antissistema, quanto nas explanações de ser mulher, tanto em sociedade quanto dentro da própria subcultura.
Além da apresentação de algumas músicas que vão compor o novo álbum da banda que, segundo Angelita, sai no segundo semestre ou no ano que vem, como ‘’¡Qué Ardan!’’, um dos destaques da noite, com a iluminação vermelha dando ênfase no refrão como chamas se alastrando. Foi o segundo show delas com a nova formação. Em tom descontraído, a vocalista e baixista Angelita explicou que elas “sequestraram” Amanda Pahim (Agravo) para assumir as guitarras após a saída de Amandinha. Além do respeito entre si e um mesmo objetivo em comum, Amanda também se entrosou de forma técnica, dando uma textura a mais ao som da banda com seus backing vocais encorpados e guturais.
O repertório ainda contou com o cover de “Delinquentes” da banda Fogo Cruzado, a “Hey Guardinha!”, com um pequeno solo de Angelita no baixo no começo da música, além de “Há Sangue”, música que relembra o rastro deixado pelo bolsonarismo no país, a crítica às guerras financiadas pela busca incessante ao poder e o adendo sempre atual ao genocídio palestino de “Guerra Urbana” e, de praxe, fechando com a afirmação absoluta de resistência de “Mulheres Punks”.
As diversas camadas de resistência
No mesmo tom de resistência estabelecido pela banda anterior, o Asfixia Social demonstrou na prática que a agregação de elementos só fortalece a unidade, especialmente quando a mensagem é firme e imediata. Fundindo hardcore, ska e rap, rimas, letras em português e inglês, o grupo se comporta como uma verdadeira orquestra de linguagens artísticas, utilizando o trompete e o saxofone para conferir ainda mais robustez a essa fusão sonora. A voz das periferias e as diversas frentes de resistência que, embora segmentadas por nichos, convergem para o mesmo objetivo comum em harmonia.
O grupo liderado por Kaneda Mukhtar fez uma festa à parte, mesmo em um intervalo curto de tempo. A princípio, tamanha miscigenação de gêneros pode parecer desconcertante; no entanto, cada elemento é posicionado com precisão, resultando em uma sonoridade vigorosa. Dava até para notar uma nada sutil referência aos rios, pontes e overdrives do manguebeat. Mukhtar era incansável e, caso a roda não se formasse organicamente, ele mesmo saltava do palco para puxar o público e iniciar o giro. “Deixa a gira girar”, gritava ao microfone. E a roda girou. Os destaques ficaram para as críticas às redes sociais que segregam e aos muros reais que isolam o indivíduo em “Walls Don’t Make You Safe”, além das faixas “Baião de Dois” e “Capoeira Karatê”.
Mosh feminista
Mesmo com uma parcela do público desconfiada, a Eskrota prova que é impossível de ignorar no palco, especialmente com os gritos de Yasmin que parecem cortar o ar como uma navalha. A energia dos solos poderosos da guitarrista somada ao baixo denso de Tamyris forma uma parede de som imponente que se intensifica com a velocidade de Jhon na bateria. Não é novidade para os fãs de Varukers que essa influência ultrapassou o punk e o hardcore para se espalhar pelo metal, mas a Yasmin fez questão de explicar que o som delas é essencialmente crossover, que isso já fez elas serem excluídas do cenário musical, mas, felizmente, elas conseguiram ultrapassar esse estigma e se consolidar.
O repertório uniu faixas antigas como “Quanto Tempo” e temas recentes como “Mantra”, parceria com Mc Taya, que traz uma crítica mordaz à cultura do estupro e conquistou o público aos poucos. Mesmo diante de uma plateia impaciente, a banda segurou o palco com falas modestas que contrastam com seu enorme calibre técnico. Como diz a própria letra da banda, mulheres combinam com o sucesso e com o palco. Foi durante “Mosh Feminista”, com o relato de Tamyris sobre o medo de se jogar na sua primeira roda, que as mulheres e até os mais resistentes começaram a interagir, embora o show tenha terminado logo em seguida.
Protestar e sobreviver
Algumas bandas lendárias do punk carregam em si aquele sentimento primitivo enclausurado em nossos subconscientes pelas amarras das convenções sociais durante o que chamam de evolução do mundo; Varukers, definitivamente, é uma delas. Só que com muita irreverência e um revirar de olhos bem niilista.
Talvez quando Eugène Delacroix pintou sua obra de arte revolucionária, com a liberdade guiando o povo, tivesse em mente algo como o que foi o mosh dos ingleses. Cerveja voando para um lado, alguém caindo para o outro e quase sendo pisoteado (claro que sempre tinha alguém para ajudar a levantar), suor, a frustração e o cansaço da rotina de trabalho na máquina de moer capitalista sendo dissipados com quem guiou muitos dos jovens a se rebelar contra o sistema; alguém decidindo fazer um crowd surfing nesse mesmo meio que tomava toda a frente do palco. Gente se abraçando. Pulando juntos. Cantando juntos. E a adição de muitas selfies e invasões no palco, com pelo menos quatro fãs subindo ao palco para, além de cantar, fazer vídeos com os integrantes.
O microfone parecia feito de porcelana nas mãos de Rat, que incitava o público; era brincalhão de uma forma genuína ao mesmo tempo que era irônico, fazia dancinhas engraçadas no meio das músicas, interagia das formas mais inusitadas possíveis e estava bem informado sobre nosso vocabulário popular. Aquele vocabulário mesmo. Em um desses momentos, um fã utilizou uma dessas expressões, ao ponto que Rat, brincalhão, respondeu: “excusez-moi? no!”.
Enquanto o baterista Kevin se atinha somente à velocidade e ao impacto certeiro que dava o tom do show, o guitarrista mantinha toda uma postura, mas também era só. O baixista, com seu moicano vermelho vivo, até teve alguns momentos com o público, apesar de ficar visível que o spotlight era do frontman, mesmo sem a pretensão do mesmo de ter isso. Se alguém falasse isso em voz alta, talvez ele respondesse com a mesma expressão popular da interação com o fã.
O setlist seguiu a mesma lógica de outras turnês, passando por hinos como “All Systems Fail”, “Die for Your Government”, “Persistent Resistance” e “I Don’t Wanna Be a Victim”. Ninguém queria que eles saíssem do palco. Rat, em seu inglês carregado, gesticulava e falava algo inteligível se retendo no topo da escada que leva ao camarim. Não deu outra. Voltaram menos de um minuto depois que saíram, mas dessa vez acompanhados por João Gordo. Trajando uma camiseta do Discharge, o vocalista do Ratos do Porão levou uma colinha para conseguir acompanhar na música. Cantaram juntos as três músicas do que deveria ter sido o bis e, para colocar mais lenha naquela fogueira, tudo finalizou com “Protest and Survive”, um sentimento de catarse coletiva e com, ironicamente, unanimidade em questão da entrega do som para todos os cantos do Cine Joia, mesmo com o peso da noite capaz de estourar todas as PA’s enfileiradas, uma atrás da outra.
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Via: WikiMetal
