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Entrevista: Lúcio Maia fala sobre novo álbum e experiência com o Soulfly

3 horas ago


O grande guitarrista Lúcio Maia lançou na última quinta-feira, 16, seu segundo álbum de estúdio, o homônimo Lúcio Maia, um trabalho que celebra a psicodelia, diversidade de sonoridades e as diferentes possibilidades da música instrumental.

Com 8 faixas instrumentais, o disco evidencia a musicalidade excepcional de Lúcio. De imediato, se destacam as linhas de guitarras únicas, conhecidas desde seu trabalho com a Nação Zumbi, envoltas em timbres psicodélicos. Mas além da virtuosidade no instrumento, o projeto traz arranjos precisos e diferentes climas, com composições inspiradas por diferentes gêneros e sonoridades. As novas faixas flertam com o futurismo, movimento artístico e literário do início do século XX que exaltava a modernidade, a velocidade e a tecnologia.

Em entrevista ao Wikimetal, Lúcio falou um pouco sobre o novo disco e também sobre sua experiência gravando com o Soulfly no final dos anos 1990.

Wikimetal: Nos anos 90 você trabalhou brevemente com o Soulfly. Como foi o convite e como foi a experiência?

Lucio Maia: A gente conheceu o Sepultura no comecinho de 96 ou final de 95. Nos conhecemos e ficamos de fazer alguma coisa. E aí, beleza, corta. O Max sai do Sepultura. Um tempo depois, o Chico morre. Não sei se chegou a um ano depois da saída dele, mas quando o Chico faleceu, o Max ligou pra gente lá em Recife e convidou a gente pra fazer uma homenagem pro Chico no Abril Pro Rock de 97. E aquilo ali foi um start, digamos assim, artístico. Meu e dele, porque logo após essa homenagem, o Max voltou pra Phoenix. Um mês depois ele me ligou me convidando pra fazer parte dessa banda nova, que ainda não tinha nome. Ele disse: “Eu convidei um batera de Nova York e a gente já tá fazendo algumas coisas aqui em casa” e me chamou pra fazer. A Nação [Zumbi] na época tava completamente parada pelo acidente, e então eu fui pra Phoenix. 

Fiquei uns quatro meses, a gente compôs o disco inteiro. Depois a gente foi pra Los Angeles, gravamos lá o disco com o Ross Robson, que tinha sido o produtor do Roots. E foi uma experiência muito massa. Primeiro que, pra mim, foi [incrível] fazer um disco com um cara que eu era fã pra c*ralho, que era o Max do Sepultura. Eu ouvi o Beneath The Remains até estourar o meu ouvido e dos meus irmãos. Então, pra mim foi um sonho a ser realizado. Foi incrível a experiência também de gravar lá fora, de fazer um disco inteiro, sabe? E também com o Ross, né? O produtor. Que até hoje é um produtor bem irreverente, um cara que tem uma mentalidade de trabalhar completamente diferente dos outros que eu já vi. Tocar com o Roy Mayorga, incrível baterista e meu amigo até hoje, a gente se fala. Para mim foi um presente do universo absurdo.

WM: O seu estilo de guitarra é muito diferente desse tipo de metal. Como você enxerga isso e também a evolução do seu estilo na guitarra desde a primeira fase, desde o Soulfly e também hoje nesse novo disco?

LM: Eu sempre fui fã do metal. Desde muito moleque, eu sempre tive um “approach” com a guitarra muito mais próximo ao metal do que para as outras coisas. Mas eu acho que com os 18, 19, 20 anos, eu abri mais a cabeça e comecei a ouvir outras… Outras formas de você enxergar a guitarra. Então eu me desprendi bastante do lance do metal, mas aquilo nunca me deixou. Isso se refletiu muito no primeiro disco do Nação, que tem música pesada pra caramba, como “Da Lama Aos Caos”, “Lixo do Mangue”. Como também tem músicas como “Samba Makossa”, tem “Rios, Pontes & Overdrive”, que são visões diferentes de guitarra oposta, praticamente. E isso foi exatamente por essa abertura. O lance da influência… Eu acho que eu tenho até hoje de tudo que eu ouço. Então, pra mim, não necessariamente eu tenho que ouvir um guitarrista. Às vezes, escutar um estilo de música me inspira. Até mesmo ver filme ou ler um livro. É uma forma de inspiração muito boa também. Não fica só a cargo de você escutar um guitarrista ou escutar uma banda.

WM: Esse seu novo disco é bem psicodélico e o rock metal sempre dialogou com a psicodelia e o experimentalismo em diferentes momentos da história. Você sente que esse disco pode se conectar com esse público?

LM: Cara, eu acho que a psicodelia é basicamente uma neural de conexão. Porque ela está inserida em vários momentos da história, não só da música, da literatura. A psicodelia, sem dúvida nenhuma, é uma dissidência psicotrópica do surrealismo, do dadaísmo. Então veio desses movimentos. Que, a princípio, foram movimentos literários, depois estéticos, e eu acho que a psicodelia é mais uma evolução dessa onda, do desprendimento do conservadorismo. Essa é a parte mais importante. Foi uma maneira de eu enxergar a minha música já desde o começo. Eu sempre me enxerguei como um guitarrista que flerta muito com o psicodelismo.

WM: Durante a construção do disco novo, quais foram os discos, artistas, referências, que te acompanharam no seu processo criativo?

LM: Eu não ouvi nada em específico. As influências vêm de vários ambientes diferentes e momentos diferentes. Uma coisa que me influenciou, mas não foi para esse disco, foi um lance de comportamento, mas foi ainda ali no final dos anos 2017, 2018, quando eu conheci a cena da música instrumental, do trio instrumental, isso aí me influenciou muito no lance da formação da banda, trio, fazendo música instrumental não necessariamente virtuosa, sabe? Muito mais musical, mais rítmico, mais sensorial, mais sinergético, se é que existe essa palavra, da sinergia, de você ouvir a música e sentir muito mais ela do que deixar se guiar pela técnica ou pelas partes mais práticas do negócio. Fazer com que a música se torne um estimulante sensorial, sabe? Então acho que já faz tempo que eu flerto com isso.

Redação

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Via: WikiMetal