
Na última quinta-feira, 13, o Fabrique Club, em São Paulo, recebeu uma das noites mais aguardadas pelos seguidores do doom metal. Com a casa cheia, o Pentagram retornou à capital paulista como parte da Farewell Tour: Last Latin American Run 2026, anunciada como a última passagem da banda pelos palcos latino-americanos.
Liderada pelo lendário Bobby Liebling, a banda mostrou que, mesmo depois de mais de cinco décadas de história, ainda possui força suficiente para transformar uma apresentação em um grande evento. Sem grandes produções, a banda apostou justamente naquilo que sempre fez melhor: volume, peso e atmosfera. Tudo isso com amplificadores valvulados, rejeitando qualquer equipamento digital para preservar a essência crua e analógica que define o estilo desde os anos 1970, diante de um público sedento por cada acorde.
A abertura da noite ficou por conta da Fuzzly, um dos nomes mais respeitados do stoner rock nacional. Vinda de Cuiabá (MT), a banda trouxe ao Fabrique Club uma sonoridade marcada por riffs pesados, guitarras carregadas de fuzz e atmosferas psicodélicas, criando uma combinação que dialogou perfeitamente com o doom do Pentagram. Na apresentação, o trio não apenas cumpriu o papel de aquecer a casa: conquistou o público, que respondeu positivamente ao peso e à intensidade da performance. A recepção calorosa mostrou que a escolha da banda para dividir a noite com uma lenda como o Pentagram foi mais do que acertada, estabelecendo, desde cedo, o clima pesado e psicodélico que dominaria o Fabrique Club.
Apresentação espontânea, imprevisível e sem preocupação com formalidades
Sem pompa alguma, Bobby Liebling (vocais), Tony Reed (guitarra), Scooter Haslip (baixo) e Henry Vasquez (bateria) subiram ao palco minutos antes da apresentação para testar seus instrumentos. Com tudo pronto, a formação, responsável também por Lightning in a Bottle, lançado em 2025, começou a noite justamente com material dessa nova fase. Mas, antes da primeira música, Liebling olhou para o público e perguntou: “Como vocês estão?”. A resposta veio com um caloroso “Yeah!”, preparando o terreno para “Live Again”.
Na sequência, “Starlady” ganhou uma dedicatória especial: “Essa é para uma garota da minha cidade”, explicou Bobby. A clássica “The Ghoul” veio logo depois, apresentada como uma homenagem “para aquelas pessoas que gostam da noite como nós”. A cada música, a conexão entre banda e público ficava mais evidente, enquanto Tony Reed e Scooter Haslip construíam uma parede sonora pesada, e Henry Vasquez mantinha tudo funcionando como uma máquina de precisão.
Depois de uma breve pausa, Bobby Liebling voltou ao palco segurando uma garrafa aparentemente de Jägermeister. Sem cerimônia, levou a bebida diretamente à boca e brindou com os fãs, provocando uma grande euforia. O momento resume bem a personalidade da apresentação: espontânea, imprevisível e absolutamente distante de qualquer preocupação com formalidades.
Em “I Spoke to Death”, o vocalista contou que, durante o longo voo até o Brasil, refletiu sobre uma conversa que teve com a própria morte. Como se fosse uma extensão da história narrada por Bobby, um grande chiado surgiu no sistema e permaneceu durante boa parte da música, acrescentando uma camada inesperada à atmosfera sombria. “Sinister” veio em seguida, introduzida com a frase de que, quando conversou com o mal, achou Lucifer “sinistro”. Já “When the Screams Come” levou o público ao limite e terminou sob uma enorme ovação, deixando evidente que aquela não seria uma apresentação tratada como simples compromisso de turnê.
O legado de Bobby Liebling e do Pentagram viverá para sempre
A sequência seguinte manteve a intensidade com “Sign of the Wolf (Pentagram)”, acompanhada por um sonoro uivo de Bobby, que brincou dizendo que a música era sobre um cachorro, arrancando risadas dos fãs. O peso continuou em “Dull Pain”, antes de “Review Your Choices” e “Thundercrest” ampliarem a dimensão mais tradicional do doom praticado pelo quarteto. Embora Lightning in a Bottle seja um trabalho recente, a nova formação demonstrou que suas músicas convivem naturalmente com o repertório clássico do Pentagram.
O disco, lançado em 31 de janeiro de 2025, marcou o retorno da banda aos estúdios após quase uma década e reuniu Liebling com Reed, Haslip e Vasquez. No palco, essa combinação funcionou de maneira particularmente convincente, sem tentar reproduzir artificialmente o passado, mas mantendo intacta a identidade que transformou o Pentagram em uma das referências fundamentais do doom metal.
Em “Walk the Sociopath”, o clima atingiu outro patamar. “Que público incrível! Sem brincadeira, é o melhor público do mundo!”, declarou Bobby, claramente impressionado com a recepção paulistana. E foi também nesse momento que o vocalista voltou a exibir aquelas expressões faciais intensas e quase hipnóticas que se tornaram uma de suas marcas registradas. A performance de Liebling, que transcende sua voz, transformou cada olhar, gesto e movimento em parte do espetáculo.
Quando deixou o palco, os gritos exigiram naturalmente o retorno da banda. Bobby voltou fumando e sendo ovacionado e, para o bis, não poderia haver escolha melhor: “Forever My Queen”, um dos clássicos mais aguardados da noite, fez o Fabrique Club tremer. A música mostrou por que o repertório antigo continua sendo tão reverenciado e por que o Pentagram ocupa um lugar tão especial na história do metal.
Se a Last Latin American Run 2026 realmente representa a despedida do Pentagram dos palcos latino-americanos, a banda escolheu uma maneira digna de escrever esse capítulo. Sem pirotecnia, sem equipamentos digitais dominando a sonoridade e sem qualquer necessidade de transformar sua música em algo que ela nunca foi.
Apenas Bobby Liebling, seus companheiros, amplificadores valvulados, riffs pesados e um público completamente entregue. Em uma noite memorável em que o doom reinou absoluto, o Pentagram deixou no Fabrique Club a certeza de que o legado de Bobby Liebling e da banda viverá para sempre.
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Via: WikiMetal
