Falar sobre Pet Shop Boys é falar sobre a própria evolução da música pop, de elementos eletrônicos e da cultura clubber. Ao longo de pouco mais de quatro décadas, Neil Tennant e Chris Lowe têm criado hits que não apenas atravessaram gerações, se alojando na memória afetiva dos seus fãs, mas suportaram com classe as drásticas mudanças da indústria fonográfica. Isso com muita classe, rigor e uma arquitetura sonora e visual meticulosa, transformando cada apresentação em um espetáculo.
Com a Dreamworld: The Greatest Hits Live, que percorre o mundo desde 2022, a experiência não foi diferente. Desta vez, o público brasileiro foi agraciado com a estrutura completa da turnê e um setlist generoso de 26 músicas na última terça-feira, 03, no Suhai Music Hall. No palco, o duo foi acompanhado por uma banda de apoio milimetricamente síncrona, composta por percussões eletrônicas, sintetizadores adicionais e, claro, a imponente mesa de controle de Lowe no centro de tudo e a voz bem conservada de Tennant, que não parece ter sido afetada um milímetro pelo tempo.
“Um mundo de sonhos, de memórias”
Contrariando o clichê sobre a pontualidade britânica, o show começou com 15 minutos de atraso. O pequeno intervalo não chegou a ser um empecilho, considerando que boa parte do público ainda chegava ao local após enfrentar o trânsito caótico da cidade, o engarrafamento no estacionamento do Shopping SP Market ou as extensas filas nos bares. Após uma abertura lúdica com direito a rufar de tambores, o telão cenográfico se abriu e a dupla surgiu ostentando máscaras de diapasão sob gritos ensurdecedores da plateia.
Se engana quem pensa que só foi até lá quem estava atrás da época de ouro da juventude. O encontro de gerações proporcionou um contraste curioso e um público extremamente diversificado. Enquanto parte da plateia exibia um visual mais despojado e contemporâneo, outros, que vivenciaram o auge do gênero, se vestiram como se estivessem em uma noite do Studio 54, com vestidos brilhantes, saltos altos e com o ar de ‘’os new wavers tomavam prosecco’’.
Nas primeiras músicas, Neil Tennant e Chris Lowe permaneciam isolados entre dois postes de iluminação pública, evocando tanto uma paisagem urbana tipicamente londrina quanto nova-iorquina, enquanto a banda de apoio seguia oculta atrás de um telão de ferro vazado. A escolha cenográfica foi milimetricamente pensada para refletir a proposta da turnê de adentrar em décadas de carreira. No início, o foco total na dupla em um ambiente urbano funciona como uma metáfora de origem que se expande conforme o palco se abre para revelar novas camadas e profundidades.
O projeto visual, assinado pelo renomado designer de teatro Tom Scutt, mergulhou o público em uma terra dos sonhos repleta de formas geométricas, texturas e uma paleta de cores com referências diretas à estética oitentista. Um detalhe fundamental foi a iluminação metamórfica, que mudava drasticamente a cada música, redesenhando o cenário e alterando a atmosfera do Suhai Music Hall de acordo com a narrativa de cada hit.
O ápice dessa dinâmica visual ocorreu no momento em que a tela subiu definitivamente, revelando a banda e expandindo o cenário, transformando a introspecção inicial em uma celebração coletiva e grandiosa de mais de quarenta anos de carreira.
Problemas no paraíso
Em qualquer show existem imprevistos, sejam eles logísticos ou de caráter técnico. Apesar do apelo charmoso do Suhai Music Hall, talvez o local não tenha se mostrado o cenário ideal para abrigar uma turnê do calibre e da exigência técnica dos Pet Shop Boys. Se, por um lado, a casa oferecia vantagens claras, como a proximidade estratégica da estação de trem e uma estrutura física com telão gigante capaz de comportar o aparato teatral do duo, por outro, sua capacidade para 9 mil pessoas pareceu ter sido testada ao limite, resultando em problemas que não passaram despercebidos aos fãs.
O principal ponto crítico foi o fluxo de público. Em certo momento, alguns setores tornaram-se tão abarrotados que era impossível dançar ou sequer respirar sem esbarrar em alguém. A gestão dos espaços também falhou quando o banheiro da pista comum atingiu sua lotação máxima. Muitos espectadores aproveitaram a oportunidade para burlar a divisão entre os setores, o que superlotou a pista premium e gerou desconforto generalizado. Esse excesso de pessoas impactou inclusive os bares, que ficaram cercados por fãs tentando assistir à apresentação pelas laterais, misturando-se às filas de atendimento.
Outro incômodo recorrente foi a acústica. Desde o início, como um prelúdio enquanto o público ainda ocupava a casa, o som da discotecagem parecia mais um som de fundo tímido do que uma ambientação adequada, elevando-se pouco quando o espetáculo principal começou. Durante a performance, a equalização oscilava drasticamente e o impacto sonoro chegava com total clareza apenas em pontos específicos do local, com quem estava na grade da pista premium sendo privilegiado. Isso acabou dissipando parte da mágica das densas e complexas camadas sonoras construídas por Neil Tennant e Chris Lowe.
Repertório completo
Diferente do último show por aqui no Primavera Sound 2023 e também de shows mais recentes como o que aconteceu no Chile, o setlist contou com 26 músicas; muitas delas sendo do começo da carreira do duo, e só com uma exceção a regra que foi a música ‘’A New Bohemia’’, do álbum mais recente Nonetheless.
Como era de se esperar, O termômetro da casa explodiu com clássicos que definiram o synthpop, como “It’s a Sin” e ” (You Were) Always on My Mind”, além da urgência urbana de “Suburbia”, o deboche de “Opportunities (Let’s Make Lots of Money)” , a batida contagiante de “Left to My Own Devices” e a balada ‘’Love Comes Quickly’’. Mas o ápice emocional, aquele momento em que a produção impecável e o fervor do público finalmente entraram em sintonia absoluta, foi durante “Domino Dancing”. O coro generalizado da plateia foi tão massivo que quebrou a pose do vocalista, rendendo elogios genuínos de Tennant à energia brasileira.
Para além de todo o impacto da superprodução, um dos momentos mais memoráveis da noite aconteceu durante a execução de “What Have I Done to Deserve This?”, quando Neil Tennant dividiu os vocais com Clare Uchima. Enquanto as vozes se entrelaçavam, os postes cenográficos eram empurrados por técnicos caracterizados como operários de obra, estreitando fisicamente o espaço no palco e criando uma atmosfera mais intimista.
O bis, assim como toda a duração do show, teve mais um pico de teatralidade, começando com vídeos em preto e branco e até o figurino sendo preparado para ‘’West End Girls’’, seguido por ‘’Being Boring’’ que encerrou a noite.
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Via: WikiMetal
