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Primeiro dia de Bangers Open Air provoca catarse coletiva com atrações do alto escalão do rock e metal

2 horas ago


Pontualmente ao meio-dia, Lucifer abria os trabalhos no Palco Sun. Não se trata de um festival de magia negra, mas sim, de uma banda sueca que se destaca pelo rock n’ roll de pegada setentista, básico e direto, e performance cirúrgica da vocalista Johanna Sadonis.

Com sol baixo e o palco surpreendentemente lotado para o horário, o som provocativo e contagiante surpreendeu os curiosos que não conheciam a banda, fazendo muita gente requebrar o esqueleto com Fallen Angel, California Son e Maculate Heart. Ao final de uma hora de show, a curiosidade virou garantia de novos fãs.

A fila do lado de fora ainda era imensa e muitos fãs só conseguiram entrar a tempo para conferir outra banda sueca, mas diametralmente oposta: o prog metal reflexivo do Evergrey, uma das bandas mais subestimadas da paróquia.

Quem pensa que um som mais introspectivo não combina com festival open air precisava ver o numeroso público do Palco Hot botando a alma para fora com as “antêmicas” Weightless e Where August Mourns, ou vibrando com King of Errors.

Só deu pena do vocalista Tom Englund de macacão preto no calor de São Paulo. A banda também apresentou seu vindouro álbum Architects of a New Weave, cuja faixa-título demonstrou grande potencial ao vivo, embora o show pudesse ser ainda melhor com alguns clássicos como Recreation Day e Passing Through.

Mas nesse momento, mal eram 14h e o ingresso já tinha valido o preço. Enfim, momento de fazer um rápido almoço e vasculhar o merchandising, tudo perto do palco. Enquanto isso, o Feuerschwanz mostrava por que o folk metal é sempre divertido e muito bem-vindo em festivais, mesmo que ninguém conheça a fundo a banda que está tocando.

Os alemães trouxeram gaita de fole, violino, dançarinas coreografadas e brincaram bastante com o público, que respondia em uníssono.

Entretanto, de olho no relógio, às 15:20 seria hora de centrar o foco em uma verdadeira força bruta do metal atual: o furacão ucraniano Jinjer, gol de placa da produção do evento. E o espetáculo foi à altura do nome, com a estrelada vocalista Tatiana Shmayluk entregando provavelmente o que será a melhor performance individual de todo o festival, com um domínio de palco hipnotizante.

A banda conquistou o Memorial com um setlist centrado no álbum novo, o primoroso Duél (2025), mas claro que o mega hit Pisces não poderia ficar de fora.

Em seguida, enquanto o Killswitch Engage trazia um som ensurdecedor ao Palco Ice, o metal brasileiro era representado no Palco Sun por Torture Squad e Crypta, ao passo que o tributo nacional ao Ozzy rolava no Palco Waves.

Criado ao modelo dos grandes festivais globais, o Bangers permite o intercâmbio do público entre os shows simultâneos, o que cria uma atmosfera fantástica e torna tudo mais agradável, garantindo que ninguém vai ficar sem música.

Apesar de que, na edição 2026, a multidão de camisas pretas tornou o deslocamento entre os palcos mais árduo desde as primeiras horas do evento, com um nível de lotação fora do comum nos palcos principais.

Falando em Ozzy, outra grande homenagem viria logo em seguida do Palco Hot. Por volta das 18h, o guitar hero Zakk Wylde já mandava seus riffs mais pesados que o ar com o Black Label Society, em pedradas como Suicide Messiah, Set You Free, Fire It Up e a novíssima Name In Blood.

O grande público presente já estava atento a cada solo de Zakk, mas foi ao delírio mesmo com as homenagens ao Madman: o cover de No More Tears e a inédita balada Ozzy’s Song, que provocou uma catarse coletiva no Memorial.

O momento emotivo foi importante para preparar os incautos perante o massacre que viria pelas mãos dos co-headliners da noite. In Flames e Arch Enemy, que estiveram entre as mais pedidas pelo público desde a primeira edição, duas potências inquestionáveis do primeiro escalão do metal, duas bandas no auge e acostumadas a fechar festivais para mais de 80 mil pessoas na Europa.

Poder assistir a bandas dessa estirpe em seu habitat natural, ao invés de segregadas para palcos secundários ao meio-dia ou para shows solo em biroscas, é outro grande trunfo que torna o Bangers tão positivamente diferenciado no cenário brasileiro.

E o In Flames já dominou o Palco Ice na primeira música, nada menos que Pinball Map. A banda vem priorizando o lado mais pesado da sua fase moderna, apoiada no desempenho vocal renovado de Anders Fridén, que, além de agitar constantemente o público, parece ter redescoberto o amor pelos gritos e guturais.

Assim, não poderiam faltar Only For The Weak, State of Slow Decay e a devastadora sequência The Mirror’s Truth, I Am Above e Take This Life, fechando o show em um gigantesco mosh com direito a sinalizadores.

Mas algumas das melhores faixas cadenciadas da carreira da banda, como Alias, Cloud Connected e The Quiet Place, também marcaram presença e foram muito bem recebidas. Alguns fãs antigos talvez tenham sentido falta de algo da fase pré-Clayman (2000), embora seja difícil negar que o show dos suecos foi impecável.

Após 10 minutos de descanso, no palco logo ao lado, os conterrâneos do Arch Enemy iniciaram com o clássico Yesterday Is Dead And Gone. Todas as atenções estavam voltadas para a vocalista Lauren Hart (ex-Once Human), que acabou de entrar no time em substituição a Alissa White-Gluz, embora não pareça ter sentido a pressão.

Além de não parar um segundo, a moça canta como se estivesse possuída e prestes a extinguir a raça humana. Lauren foi aprovadíssima e muito bem recebida, chegando a desabar de emoção. Repensando, talvez o título de melhor performance individual do evento não esteja definido ainda.

Outra fonte de expectativas vinha do fato de que o brasileiro Kiko Loureiro (Angra) acusara o Arch Enemy de plágio por conta da música To The Last Breath, recém-lançada pelos suecos. Esse caso, todavia, não gerou repercussões no festival.

A banda tocou a música sem fazer comentários sobre o caso, a plateia reagiu bem, e tudo seguiu nos conformes. O setlist ainda teve pedradas como War Eternal, No Gods No Masters e Bury Me An Angel.

Assim, entre efeitos pirotécnicos, bandeiras tremulando e uma energia tão caótica quanto ameaçadora, a banda entregou tudo que se espera de um headliner e um pouco mais, fazendo valer seu lema de pure fuckin’ metal.

O público, claro, respondeu com moshs ininterruptos e um barulho pandemônico, em especial na icônica Nemesis, que encerrou a primeira noite do festival aos brados de “One for all, all for one”. De fato, não poderia existir sentimento melhor para definir a família heavy metal, que segue sendo a marca do Bangers Open Air.



Via: RockBizz