
O C6 Fest consolidou sua edição de 24 de maio como um retrato de sua curadoria: reunir nomes históricos, artistas cultuados da cena alternativa e encontros improváveis dentro de um mesmo ecossistema musical.
No line-up do domingo, nomes como Beirut, Lykke Li, Benjamin Clementine, Magdalena Bay e Oklou ajudaram a construir um panorama que transitava entre indie, folk, art pop e experimentação contemporânea. No topo da programação da Arena Heineken, porém, dois shows concentravam grande parte da expectativa do público: o encontro entre Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi e a aguardada apresentação de Robert Plant’s Saving Grace feat. Suzi Dian, projeto que marca a atual fase artística do eterno vocalista do Led Zeppelin.
Os Paralamas do Sucesso transformaram sua passagem pelo festival em uma celebração potente da música brasileira, amplificada pela presença incendiária da Nação Zumbi. Desde “Vital e Sua Moto”, “Ska” e “Lourinha Bombril”, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone demonstraram sintonia absoluta com o público, mas foi a partir de “Selvagem / Polícia” que a apresentação encontrou seu diferencial. Com a percussão pesada e a pulsação característica da Nação Zumbi, a canção ganhou novos contornos: mais densos, urbanos e contemporâneos. “A Praieira”, executada logo na sequência, surgiu como um dos pontos altos da noite, promovendo um encontro simbólico entre duas bandas fundamentais da música brasileira e reverenciando o legado de Chico Science com energia e autenticidade.
Mesmo preservando seu lado mais emotivo em “Cuide Bem do Seu Amor”, “Aonde Quer Que Eu Vá” e “Lanterna dos Afogados”, os Paralamas mantiveram a intensidade elevada durante toda a apresentação. “Alagados”, enriquecida por um trecho de “Sociedade Alternativa”, reforçou o caráter político e social presente em sua obra, ao passo que “Uma Brasileira”, “Óculos” e “Meu Erro” garantiram o inevitável coro coletivo. Na reta final, a participação da Nação Zumbi voltou a assumir protagonismo com “O Calibre” e uma devastadora interpretação de “Manguetown”, encerrando o show em clima de celebração, peso e comunhão entre o rock brasileiro e a estética manguebeat.
Responsável por fechar a programação da Arena Heineken, Robert Plant apresentou um espetáculo bastante diferente da grandiosidade elétrica associada à sua trajetória no Led Zeppelin. Ao lado do Saving Grace, banda formada por Suzi Dian (vocal e acordeon), Matt Worley (banjo), Oli Jefferson (bateria), Tony Kelsey (guitarra) e Barney Morse-Brown (violoncelo), Plant apostou em uma atmosfera mais intimista, acústica e profundamente conectada ao folk, blues, country e gospel. O projeto, concebido originalmente em 2019, privilegia releituras, texturas orgânicas e interpretações voltadas muito mais à construção de atmosfera do que ao impacto imediato do rock clássico.
Um dos grandes trunfos da apresentação foi a presença da cantora Suzi Dian, peça central do Saving Grace e muito mais do que uma simples backing vocal. Sua química com Plant foi decisiva para a identidade do show: os duetos entre ambos adicionaram delicadeza, dramaticidade e calor humano às canções, criando momentos de grande beleza cênica e musical. Em diversos trechos, Dian dividia naturalmente o protagonismo com o lendário vocalista, e isso ficou particularmente evidente em “Orphan Girl”, interpretada por ela praticamente sozinha. O resultado foi um dos momentos mais sensíveis da apresentação, revelando não apenas a força interpretativa da cantora, mas também a confiança de Plant em dividir os holofotes em favor da música.
Canções como “The Very Day I’m Gone”, “The Cuckoo”, “Higher Rock”, “Calling to You” e “Angel Dance” reforçaram a proposta contemplativa do espetáculo, baseada em arranjos elegantes, cordas, nuances acústicas e um andamento, muitas vezes, introspectivo. Naturalmente, eram as incursões ao repertório do Led Zeppelin que despertavam as reações mais calorosas da plateia. Em um dos momentos mais inusitados da apresentação, durante “It’s a Beautiful Day Today”, uma fã conseguiu subir ao palco na tentativa de se aproximar de Robert Plant, quebrando brevemente o clima sereno do show. Rapidamente contida por um segurança antes de alcançar o cantor, a situação foi encarada com leveza pelo veterano músico, que respondeu com um “obrigado” bem-humorado e uma risada, arrancando aplausos e descontraindo o público. “Ramble On” surgiu, então, como um momento de imediata conexão emocional, reinterpretada com sutileza, sem perder sua aura clássica, enquanto “Four Sticks” e “Friends” funcionaram como pontes entre o passado monumental de Plant e sua atual fase artística.
Mas o ápice definitivo ficou reservado para o encerramento. Após um show marcado pela sofisticação folk e pela construção cuidadosa das atmosferas sonoras, “Rock and Roll” explodiu como uma descarga de energia clássica. Com mais guitarra, mais intensidade e uma entrega vocal contagiante, a execução da imortal composição levou o público diretamente a uma viagem aos tempos de ouro do Led Zeppelin. Por alguns minutos, a delicadeza acústica cedeu espaço ao puro espírito do rock and roll, encerrando a noite do C6 Fest com nostalgia, celebração e a reafirmação de que Robert Plant continua encontrando maneiras criativas de dialogar com seu próprio legado sem se tornar refém dele.
Confira as fotos do Paralamas do Sucesso feitas por Marcela Lorenzetti:
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Via: WikiMetal
