Quem não gosta de piratas tocando heavy metal? Essa pergunta foi prontamente respondida pela trupe do Visions of Atlantis, banda austríaca que abriu os trabalhos do Palco Sun no domingo, 26, no Bangers Open Air.
É interessante notar que a banda de symphonic metal está em atividade desde o começo dos anos 2000, mas só conseguiu realmente encontrar seu caminho e ganhar notoriedade após a entrada da vocalista francesa Clémentine Delauney e a posterior adoção da temática pirata que abarca os dois álbuns mais recentes, ambos de alto nível.
E o que se viu no Bangers foi um surpreendente espetáculo de conexão com o público, que lotou o espaço, vibrou alto do começo ao fim e chegou a abrir um mosh animado, coisas raras no show do meio-dia.
Nem mesmo problemas técnicos logo após a primeira música foram capazes de atrapalhar essa química, fortalecida pela ótima movimentação de palco de Clémentine e a sonoridade animada que se aproxima de um folk metal, como em Tonight I’m Alive, Clocks, Hellfire e Monsters.
O Visions foi um dos grandes destaques do dia e, se não falha a memória, fez o show de abertura mais celebrado de todas as edições do festival.
Em seguida, deslocamento ao Palco Hot para acompanhar o Primal Fear, subestimada banda alemã que mantém aceso o heavy metal tradicional, afinal, Metal Is Forever – com o perdão do trocadilho).
Em pouco menos de uma hora, que pareceu durar 15 minutos, a banda priorizou seu disco novo (Destroyer, 2025), mas também mandou clássicos como Seven Seals, The End Is Near e Nuclear Fire. Embora Ralf Scheepers continue tendo um dos gogós mais afiados do heavy metal, o aproveitamento da nova guitarrista Thalia Bellazecca para complementar os backing vocals foi uma manobra inteligente da banda.
Nesse momento, já era clara a perspicaz intenção da produção de lotar o evento desde cedo, pois a dobradinha Visions e Primal Fear, tal qual Lucifer e Evergrey no sábado, 25, garantiu casa cheia e shows de impacto logo nas primeiras horas.
A nova encarnação do Nevermore foi a atração seguinte do Palco Ice, mandando um som alto e bem preenchido, com destaque para Inside Four Walls e My Acid Words. Foi sentida a falta da icônica The Heart Collector para o público cantar junto a plenos pulmões, mas os norte-americanos entregaram uma apresentação pujante que justifica seu status cult.
Na sequência, o Amaranthe tocou para um Palco Hot lotado. Entre os gritos que parecem fazer uma ocasional evocação ao capiroto e as batidas eletrônicas que remetem a uma pista de dança de Ibiza, os suecos trazem um show muito animado e apropriado para um festival open air, especialmente sob o sol forte da tarde.
Por sinal, a cantora Elize Ryd visivelmente batalhava contra o calor, além de um desajuste inicial em seu microfone, mas nada que prejudicasse o clima de festa que é característico da banda. Assim, faixas frenéticas como Viral, Archangel, PvP, Maximize e Drop Dead Cynical aceleraram os ânimos no Memorial.
Depois de uma programação tão intensa, era hora de respirar um pouco e explorar as demais áreas do evento.
Uma boa pedida do festival é degustar variadas versões de hidromel e do whisky Jack Daniels, além de aproveitar as caprichadas comidas de rua a preços razoáveis. Outra parada imperdível são as lojas e ativações, a maioria dentro de um galpão com ar condicionado, expondo produtos típicos e afins ao universo heavy metal.
Ou quem sabe até dar um abraço no palhaço assassino Pennywise e no Freddy Krueger, que costumam andar pelas redondezas com toda a simpatia.
Como ponto de melhoria, apenas um planejamento melhor do merchandising oficial. Várias camisas esgotaram muito cedo, incluindo do In Flames, uma das principais bandas do evento, que acabaram ainda no início da tarde de sábado e não voltaram mais.
Pouco após as 18h, era hora de voltar para o circuito principal, no qual o Smith/Kotzen encerrava seu show com o cover de Wasted Years (Iron Maiden). O Within Temptation, que foi headliner do festival em 2024, subiria ao Palco Ice logo em seguida.
A banda também faz parte do primeiro escalão do metal mundial e encontra seu maior destaque na figura da vocalista Sharon den Adel, tão performática quanto carismática. Por sua vez, o setlist mesclou algumas músicas mais novas e pesadas, como Bleed Out, Wireless e Don’t Pray For Me, com algumas mais antigas e melódicas, como Faster, Paradise e a clássica Ice Queen, que matou as saudades dos fãs de longa data.
E por falar em saudade, a epítome do saudosismo estava para começar. Sem intervalo e levemente à frente do cronograma, o Angra entrou no Palco Hot emendando os clássicos Nothing to Say e Angels Cry, com Alírio Netto nos vocais.
O que se seguiu foi um rodízio de integrantes: Edu Falaschi entrou no segundo ato para cantar a fase Rebirth (2001), houve fragmentos da fase Fabio Lione, uma bela homenagem a Andre Matos com Silence and Distance e imagens no telão e, por fim, todos juntos para encerrar o show com Carry On, após mais de duas horas.
Não há porque repetir pela milésima vez todas as informações previamente divulgadas sobre o show, que todos já entenderam se tratar de uma apresentação especial. No entanto, o que vale a pena mencionar é o valor sentimental que levou o púbico a vencer o cansaço e lotar toda a área principal do evento para relembrar um passado tão marcante.
Por outro lado, não se pode deixar de mencionar as reclamações quanto à escalação do Angra como headliner e privilegiado com 2 horas de show, sob alegações de que o festival estaria forçando a barra e se esquivando de trazer mais uma banda internacional do primeiro escalão atual para encabeçar o evento.E o pior é que os dois lados têm uma parcela de razão.
Na prática, argumentos podem ser feitos de que algumas músicas de outros discos menos relevantes poderiam ser cortadas para que o show tivesse uma duração mais concisa e mais focada nos clássicos, sem dispersão da atenção. Mas, no final das contas, grande parte do público saiu mesmo com sorrisos de orelha a orelha, depois de tantas músicas emblemáticas ecoando pelo Memorial.
Portanto, o saldo do projeto pode ser considerado positivo no sentido de “foi aprovado”, somente não no sentido de “pode repetir”. E não falando apenas do Angra, mas sim das futuras escalações do festival, para que mantenha suas premissas diferenciadas e não caia na tentação do saudosismo exagerado que existe por aí. Vida longa ao Bangers.
Via: RockBizz
