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Setembro Amarelo: Como o heavy metal ajuda a quebrar tabus sobre saúde mental

9 horas ago


O Setembro Amarelo coloca a prevenção ao suicídio em evidência e abre espaço para discutir saúde mental também dentro da música. No heavy metal, temas como solidão, depressão, ansiedade e conflitos pessoais aparecem há décadas nas letras e nas histórias de seus artistas.

Longe do estereótipo de que músicas pesadas estimulam comportamentos negativos, pesquisas indicam que fãs podem usar o gênero para processar emoções difíceis e encontrar identificação. Um estudo publicado na Frontiers in Human Neuroscience, com 39 fãs de música extrema, não encontrou aumento de hostilidade após a audição. Os participantes relataram sentimentos como inspiração e maior energia.

Isso não significa que o heavy metal seja tratamento para problemas de saúde mental. A música pode, porém, ajudar alguém a reconhecer sentimentos e perceber que não está sozinho.

James Hetfield fala abertamente sobre saúde mental

Um dos exemplos mais conhecidos é James Hetfield, do Metallica. O músico já falou publicamente sobre terapia, recuperação e as dificuldades que enfrentou ao longo dos anos.

Em entrevista ao site oficial do Metallica, Hetfield contou sobre o período em que precisou se afastar das atividades da banda para cuidar da própria saúde, afirmando que sua saúde mental precisava estar em primeiro lugar. “Houve um renascimento, a percepção de que minha vida precisava de ajuda. Ir para a reabilitação, dar uma pausa em algumas coisas da banda novamente por motivos de saúde pessoal e mental, sabe? Isso se tornou prioridade, mesmo que eu só quisesse continuar na ativa, deixar a banda seguir em frente e fugir dos problemas.

“Eu precisava lidar com as coisas. Havia muita vulnerabilidade naquele momento. É muito difícil, quando há tanta coisa acontecendo ao seu redor no resto da sua vida, tirar um tempo para si mesmo, para se recuperar a ponto de se sentir minimamente funcional. E, para mim, às vezes não tem sido fácil simplesmente me isolar do resto do mundo. Terapia, programas, reabilitação e tudo mais. Tudo isso me ajuda a ter ajuda externa para lidar com essas questões e problemas do meu passado. Quanto a escrever em um diário, eu escrevo sobre certas dificuldades ou assuntos que estou enfrentando”, disse ele.

Vale ressaltar que escrever sobre problemas em um diário ou documento ajuda muito à saúde mental, pois reduz o estresse e organiza os pensamentos. Psicólogos reconhecem que a prática é eficiente para uma série de propósitos, desde digerir eventos traumáticos até aliviar o estresse e minimizar os sintomas da depressão [via Psicólogo e Terapia].

Corey Taylor fala sobre os desafios e superações ao lidar com a depressão 

Corey Taylor, do Slipknot, também transformou experiências pessoais em parte de sua relação com os fãs. O vocalista já relatou ter enfrentado depressão, falta de moradia e uma tentativa de suicídio. Em entrevista à Revolver, Taylor falou sobre terapia e reconheceu o peso de ser visto como uma referência. Para ele, essa posição também traz a responsabilidade de falar abertamente sobre questões difíceis. A ideia, segundo o artista, é mostrar pelo exemplo que problemas precisam ser enfrentados, e não escondidos.

“Existe uma responsabilidade implícita nesse trabalho, de que as pessoas te veem como uma inspiração e fonte de orientação, quer você goste ou não. E eu conheço muita gente que não gosta dessa responsabilidade. Eu a levo muito, muito a sério. Então, de muitas maneiras, tento liderar pelo exemplo. É desconfortável se abrir assim, mas, ao mesmo tempo, se você não consegue falar sobre um problema, como vai resolvê-lo? E essa é uma das coisas que as pessoas não entendem. Se você simplesmente não disser nada, isso não vai resolver o problema. Você resolve um problema trabalhando nele, entende?”

“Eu também sei que existe um grande estigma associado à terapia e ao enfrentamento de problemas, de demônios. Muitas pessoas não querem falar sobre isso, menosprezam ou tendem a zombar de quem passa por isso ou se envolve com essas questões. Estou tentando desmistificar isso, mostrando às pessoas que, sim, eu também faço terapia e ainda estou tentando lidar com meus demônios e com as coisas pelas quais passei na vida. Será que um dia vou conseguir resolver tudo? Provavelmente não. Mas é por isso que é um processo […] Não é só o estigma de buscar ajuda, mas também o de se livrar daquela baboseira dogmática que vem nos destruindo há tempo demais, fazendo com que a aparência de força pareça, na verdade, fraqueza”, disse Corey. 

Esses relatos ajudam a mudar uma imagem antiga do rockstar como alguém que precisa esconder fragilidades. No lugar disso, artistas passaram a mostrar que procurar ajuda profissional também faz parte da vida de quem está sob os holofotes.

Música pesada é um gatilho?

A associação entre heavy metal e comportamentos negativos é antiga, mas não explica a relação dos fãs com o gênero.

A pesquisa da Frontiers in Human Neuroscience ainda apontou que ouvir música extrema pode ajudar algumas pessoas a regular emoções negativas. Em muitos casos, o ouvinte não busca uma música triste ou agressiva para piorar seu estado emocional, mas porque aquela obra consegue representar algo que ele já está sentindo.

Essa identificação também aparece nas letras de artistas como Chester Bennington, do Linkin Park. A Kerrang!, por exemplo, destacou como Chester Bennington utilizava a música para expressar experiências pessoais relacionadas à dor, ansiedade, solidão e outros conflitos. O vocalista explicou que utilizava a música para colocar para fora experiências negativas de sua própria vida. “Consegui acessar todas as coisas negativas que podem me acontecer ao longo da vida, anestesiando-me para a dor, por assim dizer, e conseguindo extravasá-la por meio da minha música”.

Em promoção ao álbum One More Light, último trabalho de Chester, o músico disse à Kerrang!: “Eu nunca me sinto confortável ou satisfeito, então o que torna as coisas realmente pesadas para mim são meus pensamentos e comportamentos, nos quais eu fico preso nesses ciclos de negatividade ou abuso de substâncias. Existe um bairro muito ruim dentro da minha cabeça, então eu realmente não deveria andar por essas ruas sozinho”, e a revista destacou: “O fato de Chester, em seus últimos dias, ter se sentido sozinho naquelas ruas, com milhões de pessoas ao redor do mundo o amando tanto quanto sua morte evidenciou, é uma tragédia em si”.

Ao longo da carreira, o cantor falou sobre experiências pessoais relacionadas à dor e utilizou a música como forma de expressão, talvez como um pedido de ajuda que nem todos conseguiram entender. Destaca-se a letra de “One More Light”, que diz: “quem se importa se mais uma luz se apaga? Eu me importo”, um lembrete de que a vida de quem sofre importa.

É importante, porém, não confundir identificação com tratamento. Uma música pode acompanhar alguém em um momento difícil, mas não substitui psicoterapia, atendimento médico ou uma rede de apoio.

You Rock Foundation: Quando falar sobre saúde mental vira parte da música

Essa mudança de postura também ganhou espaço em iniciativas criadas dentro da própria comunidade musical. Em vez de tratar saúde mental como um assunto distante dos palcos, projetos passaram a usar a visibilidade dos artistas para falar sobre depressão, vulnerabilidade e prevenção do suicídio. É nesse contexto que surgiu a You Rock Foundation, reunindo músicos para compartilhar experiências e incentivar conversas que ainda carregam muito estigma.

A You Rock Foundation surgiu a partir da experiência pessoal de Joseph Penola, profissional da indústria musical e sobrevivente de duas tentativas de suicídio, segundo relato da cofundadora Laura DeSantis-Olsson. A organização foi criada com a proposta de usar a música e os relatos de artistas para ampliar a conversa sobre depressão, saúde mental e prevenção do suicídio, apresentando histórias de músicos que enfrentaram períodos difíceis.

Entre os artistas ligados à iniciativa estão Corey Taylor e James Root (Slipknot), Jonathan Davis (Korn), Randy Blythe (Lamb of God) e Darryl McDaniels (Run-DMC). Também participaram dos projetos da fundação nomes como Jesse Leach (Killswitch Engage), Bert McCracken (The Used), Tommy Vext (Bad Wolves), Heidi Shepherd (Butcher Babies), Otep Shamaya, entre outros.

A parceria com Corey Taylor ganhou destaque em 2014, quando o vocalista participou de um vídeo da fundação sobre depressão e prevenção do suicídio. O músico desabafou sobre ter ficado sem-teto, lutar contra a depressão e como tentou suicídio. Ele descreve o dia em que tentou tirar a própria vida como “o pior momento da minha vida, porque eu fiz isso comigo mesmo”.

Ele também intensificou o método de escrever para ajudar a aliviar os problemas: “A única coisa que realmente me ajudou foi escrever. Parecia que, quando eu escrevia, conseguia processar tudo e realmente entender a situação. Isso me proporciona uma maneira de liberar aquele grito primal sem precisar gritar”.

Em seguida, o vocalista do Slipknot envia uma mensagem para qualquer pessoa que esteja pensando em suicídio, dizendo que tudo que vem depois da escuridão é melhor. “Sempre há luz no fim do túnel. Sempre há uma saída. Tudo é temporário. A dor é temporária. A depressão é temporária. Você é mais forte do que imagina, você consegue superar isso. Você importa, você é necessário e você é incrível” [transcrição via Loudwire].

Onde buscar ajuda

O Setembro Amarelo acontece ao longo de todo o mês, enquanto o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro.

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional pelo número 188, gratuitamente e 24 horas por dia.

Também é possível procurar CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPAs e hospitais. Em situações de emergência, o SAMU atende pelo 192.

Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento de sofrimento, procure ajuda profissional ou converse com uma pessoa de confiança. Não é preciso enfrentar isso sozinho.

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Jéssica Marinho

Atual Editora do Wikimetal. Jornalista e Fotógrafa em cobertura de shows, resenhas, matérias, hard news e entrevistas. Experiência em shows, grandes festivais e eventos (mais de mil shows pelo mundo). Portfólio com matérias e entrevistas na Metal Hammer Portugal, Metal Hammer Espanha, Metal Injection (EUA), Wikimetal e outros sites brasileiros de cultura e entretenimento.

Também conhecida como A Menina que Colecionava Discos – [email protected]



Via: WikiMetal